10/18/17

Pinhal do Rei - Afonso Lopes Vieira


Pinhal do Rei

Catedral verde e sussurrante,
aonde a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...


Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar
e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde,
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917

Sugestão de leitura: 

Cidadãos da Marinha Grande enviam queixa à Procuradoria Geral da República- Grupo de pessoas quer investigação ao incêndio que devastou Mata Nacional de Leiria. Para ler aqui.

Constança diz adeus ao MAI após fim de semana quente


A culpa dos incêndios é evidentemente do Governo, é dos partidos do Governo, é da oposição, é dos portugueses porque somos nós que elegemos Governos, é dos anteriores Governos e sobretudos dos desGOVERNOS, dos anteriores ministros e presidentes, é da cedência cega às politicas da UE que hipotecaram o futuro da floresta, da agricultura e atrofiaram o interior. A culpa dos incêndios é de não existir uma política da floresta e antes uma floresta de políticos onde predomina a monocultura do partido a que pertençam. A culpa é central e é local, a culpa não tem cúpula. A culpa é dos graus de temperatura média anual a mais que somam e seguem, e somarão, dos fenómenos atmosféricos episódicos extremos, dos que incendeiam por loucura, oportunismo, negócios escuros, dos incautos das queimadas, dos desleixados que não limpam, do desGOVERNO total a que se tem votado a floresta ao longo de décadas. A floresta é um assunto sazonal, são dossiers que vão de férias em Outubro e que só regressam depois da mudança da hora. A floresta só é lembrada quando dá dinheiro e quando arde, e até para o cartaz turístico do país é remetida sempre para segundo plano. A floresta é um assunto tão pouco importante que qualquer Zé comenta na TV durante meia hora mas os especialistas, engenheiros florestais, biólogos e outros, ficam em casa a ver e a rir-se para não chorar. A culpa é das árvores, se fossem antes estas e não aquelas isto já não acontecia. A culpa, a culpa. A culpa é ramificada, são muitos ramos e raminhos, raízes fundas cujas extremidades a custo se alcançam. A culpa vai tão longe que já ninguém lhe consegue deitar a mão. Em suma, e para acabar, a culpa é do fogo porque o fogo queima. 

E então não vamos demitir nem permitir a demissão da ministra porque isso nada resolve: não expia a culpa dos incêndios porque a culpa é maior do que aquela por que ela alguma vez poderá responder e procedendo assim estamos a fazer de Constança mais uma vítima dos incêndios; demitir Constança não traz os mortos de volta, não devolve a seiva às árvores queimadas, não repovoa os terrenos em cinzas, não há nenhum efeito útil nisso. Todavia gostaríamos, se pudéssemos, de chamar todos os anteriores que falharam na resolução do problema floresta e de os fazer pagar por isso. Constança é que não: deixemo-la continuar a fazer o que de melhor sabe fazer mesmo quando a senhora implora para sair após Pedrogão. 

O problema dos incêndios não se resolve com a demissão da ministra mas Costa que diga e também aqueles que andam a afirmar isto, porque acham que se resolve com a sua manutenção no lugar: porque o mais fácil é sair? Mas que resposta é esta?!! Exempliquem-me o que ela fez desde Pedrogão, o que fez Constança e o MAI por que dá a face? E, já agora, o que se fez antes de Pedrogão? Ela chegou em 2015. Em 2016 ardeu no Porto, em Aveiro, em Viseu e na Madeira. O período crítico de incêndios foi até prorrogado pelo Governo devido às condições meteorológicas. Segundo li, a área ardida em 2016 mais do que duplicou em relação a 2015, tendo os incêndios florestais consumido, até 30 de setembro, 150.499 hectares, embora em contrapartida, o número de ocorrências de fogo tivesse descido quase 25 por cento face ao mesmo período de 2015. Isto é bom? Isto é excelente?  A Protecção Civil comunicou que 35 por cento dos grandes incêndios tiveram origem intencional, 26% tiveram causa negligente e 29% desconhecidas. Também se verificaram mortes. Lembram-se? Ou foram poucas para serem lembradas? 

Do que recordo Constança encomendou estudos sobre o SIRESP, a que continuamos presos e a ver falhar nos momentos de crise, falou-se em meter reclusos a catar mata. Digam-me que mais andou Constança a urdir, eu também não andava de olho na senhora, mas entretanto fiquei a saber que não gozou férias: tem de haver mais qualquer coisa. Algures durante o verão o ministro da Defesa, Costa e Constança concordaram que a Força Aérea devia voltar ao combate das chamas, em Agosto ela não possuía meios aéreos que permitissem a realização de missões de combate a incêndios, agora é Outubro e também não tem. Porquê? Porque tudo demora o seu tempo. Correcto, aceito. Mas eu pergunto se o processo já foi sequer iniciado. Foi?

Constança não é nenhuma idiota. É uma jurista capaz com fama de trabalhadora. Não é lá muito hábil nas declarações que presta, não duvido da sua dedicação ao posto, mas, sobretudo, onde está a mudança que se espera a cada novo verão? E se a estrutura de liderança da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) foi alterada quase por completo desde que o Governo entrou em funções, com a substituição de sete dos oito membros, - porque os que lá estavam foram avaliados como incompetentes, foi isso? - se em cima da época de incêndios houve também muitas mudanças na estrutura de comando operacional,  - em nome da melhor obtenção de resultados? - e se depois de Pedrogão houve duas demissões pelo menos na Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) em virtude das falhas que terão sido cometidas durante o incêndio mais mortífero de sempre e ninguém se manifestou contra, agora Constança não pode ser demitida pois estamos a fazer dela um bode expiatório? E porque será substituída por um clone dela mesma... e nisto eu acredito.

Não entendo nem a obstinação de Costa em relação ao deferimento do seu pedido de demissão nem à remodelação do MAI, nem a de muitos que pelas redes fora se manifestaram como se ela fosse um elemento insubstituível. Onde estão os resultados impactantes da sua acção na criação de uma política de preservação e continuidade da floresta portuguesa? Some-se ao que disse as  resoluções do MAI para este fim-de-semana quente ou a sua ausência. Se esses muitos que defendem Constança fossem responsáveis por grandes empresas e nomeassem uma pessoa para um lugar de responsabilidade e confiança, e ela vos falhasse, continuariam a ser assim tão magnânimos? Dar-lhe-iam mais uma oportunidade? Devo ser muito insensível então. Por muito capacitada na área jurídica e trabalhadora, pura e simplesmente Constança e o seu MAI não estavam a dar a resposta que é esperada e ter mantido Constança obstinadamente desde Pedrogão  foi apenas alinhar com o rol de subjectividades que todos desejamos combatidas. 

10/16/17

Um dia de fogo na Marinha Grande - 15 de outubro de 2017














Muitas questões a lavrar-me por dentro. Temos o conhecimento mas ainda não interiorizámos rotinas de prevenção e alerta. Persistimos em comportamentos de risco fruto de hábitos antigos, tradições, vícios de carácter. Os tempos mudaram e o tempo mudou. O clima mudou. Temos de mudar muito e muita coisa. Não temos é coragem para assumir tamanha empresa. E enquanto isso o país espera que não aconteça o pior. Mas acontece. O país arde e morre gente. Se é algo complexo, que demora a ser feito, então vamos iniciar a tarefa quanto antes, agora, já. Do mais fácil para o mais difícil, de possível em possível. Que todos os que concorrem na responsabilidade se impliquem na solução. Que se chame quem sabe a pensar e a fazer o que pode ser feito antes que Portugal desertifique e se transforme no norte de África. E já agora que se coloque quem sabe à frente da tomada de decisões importantes. E que se pare de distribuir lugares de responsabilidade pela cor dos lindos olhos. E se apurem falhas porque gerir estes assuntos não pode continuar a ser um rega-bofe: quem aceita ou mostra estar à altura ou responde pelo desaire, em Lisboa ou na província. Até parece que quanto mais importante o posto mais desculpáveis os erros. Tudo isto é coisa que vem de longe, de muitos verões passados. Não me digam não ser agora o tempo de julgar e criticar, que as vítimas exigem o recolhimento e o infortúnio pede o luto: o tempo já era ontem e ontem já era tarde. Sim, continuo irada pelo que assisti e pelo que antevejo ainda.E também porque não posso fazer nada a não ser vociferar e gesticular para o ar como uma idiota. E também por saber que nada me garante que quem está à frente dos nossos destinos não falhe de novo. Errar é humano mas não aprender com os erros é descrédito. E isso é pior que falhar de novo. Se isto não é o inferno é, todavia, um ciclo infernal que Portugal não merece, ninguém merece esta desolação. Não nos entreguemos sem luta à conformação de que não se pode fazer melhor.

Sugestão de leitura: 

"Paulo Fernandes, perito da Comissão Técnica Independente, alerta que poderiam ter sido tomadas medidas perante o elevado risco metereológico. Furacão Ophelia elevou o perigo de incêndio para recordes nacionais" Ler o texto integral, aqui.

10/12/17

A mancha do Photoshop

Ontem de tarde passei cerca de meia hora a tentar apagar uma mancha numa layer do Photoshop. Tinha para cima de 200 layers empilhadas, o que até pode parecer muito mas nem é nada. Seleccionava uma e outra sem remédio. Depois de ter tentado todas as soluções e até de ter googlado por mais, sem perceber o que mais poderia fazer para eliminar a mancha, porque não existe grande ciência no assunto, e preparando-me para contornar trabalhosamente o problema, ocorreu-me ir fazer um chá verde que dizem ajudar a prevenir doenças do coração. É que eu estava prestes a ter um ataque de. Nesse afã me encontrava quando tocaram à campaínha. Era a vizinha do 7º andar que vinha rogar o favor de eu lhe dar as boxers castanhas que tinham caído nas minhas cordas, estavam por um fio, sorte era não haver vento. Tenho um acesso de hospitalidade convido-a para entrar para a cozinha enquanto me estico à janela para apanhar as ditas. E como o bule está mesmo ali a olhar para nós da sua alva beleza sugiro que se me junte no chá verde que descansa. Ela aceita e vamos para o escritório onde nos sentamos informalmente à mesa onde trabalho, daí a pouco as duas a fazer música com a colher contra a porcelana das chávenas, ela a dissolver dois torrões de açucar, eu apenas a fazer ondas. Insisto que prove as bolachas de aveia integral que entretanto fui buscar para vestir o estômago, saudáveis, digo eu. O ecrã do computador ficara entretanto em modo de economia, negro, mas primo a tecla e faço um enter orgulhoso para lhe mostrar o trabalho. Explico o processo, as ferramentas, elaboro sobre a magia do Photoshop. Ela diz que não percebe nada do assunto, tecnologia, informática, finge que está interessada sem disfarçar. Assim que pressente uma pausa no meu discurso pergunta-me pela receita das bolachas. Concluo, sem espanto, que o meu entusiasmo em relação ao Photoshop não a contagia e a resposta de que as bolachas vieram do Jumbo esgota a conversa. O meu olhar já está de novo cativo na mancha infecta, que não consigo remover. Não temos muita convivência, eu e esta vizinha. Descemos e subimos no elevador, emprestadei-lhe um limão ou outro, um ovo. No dia em que o rei faz anos traz-me uma fatia de bolo de aniversário, muito enjoativo, e, que me perdoem todas as crianças que passam fome no mundo, que eu nunca consigo terminar. Nunca sequer diz quem é o aniversariante, sempre apressada pois tem a casa infestada de visitas, tão stressada como quando sobe no elevador comigo, de compras nas mãos, ou desce, com os sacos do lixo. Eu também não pergunto. Deus me livre de perguntar e acabar por ser convidada para uma festa de bolos e bebidas hipercalóricas e outros atentados alimentares semelhantes. Ir lá acima para ver comer -que é muito diferente de comer com os olhos, - ter conversas agri-doces com estranhos, fintar os jovens explicandos a quem ela prepara nas matemáticas, aturar duas crianças hiperativas, as cadelas com o cio, emprestar o meu ombro ao pai dela que está deprimido e não sabe porquê, aturar o ex- a reviver o casamento falhado, ele que será sempre um amigo do peito para ela, mais a prima ruiva que não deixaria escapar a oportunidade de me tentar recrutar para a Yves-Rocher mais uma vez, conheço-os todos não de gingeira mas porque ela me apresentou a toda essa fauna no elevador, esse espaço ingrato de convivência social, - mencionei rever os outros vizinhos todos com quem partilho o elevador de uma assentada e acabar a discutir questões de condomínio? – ou no inescapável hall de entrada. E depois descer, e decerto com a fatídica fatia de bolo de três camadas num prato, olhar aquela temível flor de açucar vermelha e a folhita de hóstia esverdeada, saber que não vou conseguir comer até final: é demasiado para engolir de bom grado. E a cereja no topo, ter de comprar um inimaginável presente. Há muitos anos que deixei de praticar intimidades com a vizinhança assim como nunca durmo com colegas de trabalho. Regras são regras. Mas nem sempre nem nunca. E fosse porque me sentisse vencida pela insolência daquela mancha que se ria para mim no ecrã ou porque cansada de tanta higiene mental no que toca a interações sociais, cedi a uma momento de fraqueza e partilhei a minha frustração: apontei-lhe, inconsolada, a mancha. A minha vizinha, que nada percebe de computadores e Photoshop, levou mecanicamente as mãos ao peito e subiu os óculos pendurados do pescoço até à cana do nariz. Com olhar médico aproximou o rosto do computador que examinou por breves instantes. Sem hesitar molhou o dedo indicador no chá verde e esfregou-o contra o polegar. Apenas me disse: Posso? E dito isto moveu a polpa do dedo sapudo até à superfície do ecrã onde descreveu pequenos círculos suaves. Alarmada pelo vermelho escarlate da sua bem desenhada unha de gel abri muito os olhos porque não tive tempo de abrir a boca e impedi-la. A minha descompostura facial ficou-se por isso porque a mancha desapareceu como que por magia, digo-vos que até parecia Photoshop! Ensaiei uma piadola com o Quincy Magoo não para a fazer rir, mas para minorar o meu desconforto e levei a chávena de chá à boca, terminando a bebida de um trago. Ela não sabia quem era o velhote pitosga dos desenhos animados. Estavamos num impasse, eu agora titubeante que nem o Porky Pig, entre o agradecido e o embaraçado, a chávena dela quase cheia sobre a mesa dizia-me que o tempo sobejava para o muito que não havia a dizer. E então ela exclamou o estridente, costumeiro e hoje providencial, vizinha estou cheia de pressa, e levantou-se de um salto. Ainda tinha a louça do almoço por meter na máquina, disse, graças a deus, pensei eu. Que nódoa.

10/11/17

Madonna vai à bola com Portugal

Ahah, esta Madonna, concedam, uma pessoa tem de gostar um bocadinho dela. Olhai só este instantâneo da material girl a festejar o golo da selecção nacional, Portugal olé, Portugal olé. Em Roma, sê romano. A mulher foi ao estádio da Luz e tudo. Comove-me ver como até levanta os bracinhos em exultação pelo golo marcado por quanto eu nem a TV liguei e não me estou a imaginar a viver em Chicago e a aplaudir os Bulls. Paradoxos, eu, nascida em Lisboa, nem lambuzada em pastéis de Belém consigo disfarçar o meu amor pelo Porto. E agora a Madonna, uns mesitos em Lisboa, até já é muito mais portuguesa que eu. Que era uma artista camaleónica, eu sabia, mas isto supera tudo. Eu cresci com a Madonna, todas nós crescemos, e lembro-me de ter gozado com um amigo quando ele me mostrou o LP de estreia dela, acabado de comprar, dizendo-me, "ela vai ter muito sucesso". Eu desdenhei da virgem, claro. Balanço feito, viria a comprar dois CD (já tentei vender um mas ninguém o quer) e um CD single da senhora, o livro que escreveu para cachopos, vi um ou dois DVD's de espectáculos ao vivo, os filmes terríveis onde ela entrou, todos de evitar menos o Evita, esse escapa, mas só porque eu gosto de musicais. Agora a Madonna está a um passo de gravar um CD de fados com o Camané ou com o Marco Rodrigues, ou até de plagiar uma modinha do Tony Carreira. E se não tiver cuidado ainda acaba candidata a algum orgão do poder local. Preocupante mesmo é não conseguir uma casita. Mesmo se os invernos aqui não são rigorosos, tenho pena das crianças. O Palácio Sotto Mayor está desocupado e acho que até fechado a visitas, era uma hipótese para a rainha da pop morar, longe do bulício low-cost de Lisboa. Mas ainda ninguém lhe falou da Cascais de Coimbra, porque é o segredo mais bem guardado de Portugal, em breve haverá aeroporto a 50 km e tudo, útil para ela ir num pé à TV americana dar entrevistas ao Jimmy e voltar no outro. Além de não encontrar casa em Lisboa, Madonna parece também não ter ainda conseguido encontrar um cabeleireiro de confiança que lhe trate daquelas raizes profundas. Observando bem, as raizes até combinam com os óculos escuros, talvez seja uma tendência da estação. Uma estação chamada desleixo. O desleixo não lhe fica de todo mal, em mim ficar-me-ia pior porque eu não sou a Madonna. Aguardo que, depois das nossas autoridades administrativas lhe terem dado um visto em circunstâncias especiais, as culturais lhe façam idêntica demonstração de consideração, por exemplo, oferecendo-lhe uns óculos da colecção pessoal da Amália, - já se percebeu que Madonna aprecia óculos grandes, - após o que ela, em agradecimento, mudará o nome para Madália e fará juras de os usar até que a voz lhe doa.

9/25/17

Percevejos invadem Portugal

Percevi, depois de passar os olhos por diversas fontes informativas, que estamos a ser invadidos de forma silenciosa por criaturas que se infiltram nos colchões e nas roupas de cama em busca escuridão e calor humano. Vêm à boleia em malas e não pagam bilhete. Os moradores dos centros urbanos mais afectados consideram tratar-se de mais uma atribulação, desta vez sanguinária, do recente boom turístico. Como explorar proveitosamente esta vaga de turismo de pé descalço coloca, todavia, os operadores turísticos perante um desafio ímpar. Enquanto isso as empresas de desinfestação festejam o oportunismo. Os jornalistas tentaram contactar os principais visados mas eles não perceveram a questão e nada comentaram, rastejando calmamente para longe do foco da sua atenção. A Madonna ainda não se manifestou.

Serviço público: saiba como lidar com os percevejos turistas

9/17/17

Casamento por conveniência



The Unequal Couple, Lucas Cranach, the Elder, 1530. Um exemplo de como o FB só me faz perder tempo. Abro o FB e vejo que o Rui B. acaba de publicar uma fórmula onde se explica a diferença entre gostar de alguém, estar apaixonado e amar alguém. Leio. Gosta-se quando a gente se apega a alguém e se começa a apreciar a pessoa; apaixonamo-nos quando achamos que a pessoa em questão é perfeita e finalmente amamos essa pessoa quando, concluindo que a pessoa não é perfeita, aprendemos a amar os seus defeitos. Ora, era informação de que não precisava, mas é sempre bonito rever conhecimentos adquiridos. 

Continuo a fazer scroll pelo feed e outro Rui (V.) acaba de publicar uma pintura de um cavaleiro - é o nome da mesma, foi assim que soube -, um homem de cabelos ruivos, barba penteada e um acrobático bigode que se abre de par em par sob o aquilino nariz. Gosto e começo a examinar a obra prima. Na cabeça um chapéu preto marginado a penas que lhe tomba para o lado direito. Tem o pesçoço atormentado por um colarinho dourado, mais propriamente uma feminina gargantilha que parece não pertencer à camisa pregueada que salta à vista do amplo decote quadrangular da vestimenta e onde assenta uma corrente dourada com uma pequena medalha. O tronco está bem cingido por essa peça que mais parece um vestido, desta forma o seu peito é quase um coração tal a sufocante cintura de vespa que depois se alarga, mas não muito. Ficamos pelo meio corpo, o pintor não se abalançou a mais, os olhos vão-se-nos nas mangas de verde escaravelho tufadas até ao cotovelo, dali em diante bem justas até culminar nas mãos, uma na anquinha, outra na espada. A expressão do cavaleiro é a que eu devia fazer em miúda quando ia obrigatoriamente fazer as radiografias toráxicas no âmbito escolar e o radiologista me dizia: não mexe, não respira. O peito do homem também parece estar repleto de ar e pronto a estoirar. 

O autor deste retrato é o fantástico Lukas Cranach (the Elder, porque existiram filhos), assim que vi o nome lembrei logo que pintou o retrato de Lutero. À semelhança da fórmula romântica, também não precisava de ter visto esta pintura hoje, mas já que vi uma, porque não ver mais alguma? É coisa para que estou sempre pronta. A memória já não me assiste como dantes pelo que no Google comprovei que era, de facto, o pintor amigo do Lutero. Fiquei depois a deleitar-me com mais algumas obras do artista germânico que ficou conhecido por muitas razões, uma delas porque foi um dos melhores do seu tempo, grande retratista, autor de pintura religiosa e secular, etc,etc. Além do retrato do Lutero eu sempre o associei às divertidas pinturas dos homens velhos que se perdem de amores, ou luxúria, pelas mulheres mais jovens. Era um tema recorrente na pintura da época. Nas paredes dos lares da Renascença penduravam-se estas lições de moralidade, a da jovem mulher que seduz um homem mais velho e tonto por dinheiro. O pintor retrata por vezes o acto de forma descarada, a jovem com a delicada mão na bolsa das moedas mesmo nas barbas do homem seduzido. Estas mulheres da Renascença eram o demónio de saias. E os homens, coitados, tinham de ter estes lembretes pendurados na parede porque ainda não havia post-it. 

Mostro-vos um exemplo mais recatado, vejam como a jovem da pintura irradia vida e beleza: ainda pode dar à luz um filho, mais não, que a esperança média de vida naquela época era apertadinha. O homem já está mais com os pés para a cova que outra coisa, mas, coberto de peles, é um rico homem. Fiquei entretanto a magicar em que fase da fórmula que descrevi acima se encontraria a mulher, I,II ou III. Sem dúvida que a mulher gosta dele: vejam como ela está apegada à mão do pobre homem e como lhe devolve o sorriso desdentado. Sem dúvida que o casaco de peles é perfeito, quem é que não se apaixonava por um casaco daqueles. E sem remorsos pois no séc. XVI ainda não havia PETA. E a casa com vista para o mar? Perfeita! E sem dúvida que a senhora ama do coração cada fio prateado daquela moribunda barba: só de pensar no que vai herdar! E o pequeno detalhe do idoso já não ter dentes é uma gracinha: é como embalar de novo um bebé nos braços. Ah, aquele Cranach era mesmo terrível!

8/25/17

Incendiário



"AMBULÂNCIA VIAJA DE LISBOA AO PORTO PARA LEVAR INCENDIÁRIO A CONSULTA DE AVALIAÇÃO PSIQUIÁTRICA

O Hospital Prisional de Caxias no Concelho de Oeiras, requisitou alegadamente hoje aos Bombeiros de Paço de Arcos uma ambulância que conduziu hoje um alegado incendiário detido naquele hospital prisional, à delegação do Instituto Nacional de Medicina Legal no Porto, para uma consulta de avaliação psiquiátrica que teve a duração de sensivelmente 10 minutos."
https://www.facebook.com/observatoriodeprotecaocivil


O incendiário vai de ambulância, o bombeiro vai de comboio combater o fogo. Quem se lembra da notícia deste Maio:"Este verão, 90 bombeiros vão deslocar-se de Lisboa e para os incêndios em Viana do Castelo de autocarro e de comboio. O objetivo, explicou o secretário de Estado da Administração Interna, é evitar que as corporações cheguem "cansadas" aos teatros de operações e, ao mesmo tempo, "evitar o desgaste" das viaturas de serviço e os acidentes." Até pode ser que tenha sido uma boa ideia, os bombeiros é que o saberão dizer. Mas comboios e autocarros que eram bons para o bombeiro não serviam para o incendiário, e desconfio que os carros prisionais devam ter sido requisitados pelo turismo para algum circuito temático. Assim, foi de ambulância não fosse chegar atrasado e/ou alterado à consulta e assim resultar falseada a avaliação psicológica. Imagine-se ser-lhe mostrada uma mancha de Rorschach e o incendiário dizer que aquilo é um pinhal que foi abrasado em cinzas, coisas sem nexo algum. Começo a desconfiar que o que dizem da violência nas prisões - ou hospitais prisionais ou lá o que é - é verdade. Para ir de ambulância é porque deve estar com os ossinhos todos partidos, é mesmo chato uma pessoa ter o grande azar de ir presa e acabar coberta de gesso. Outra situação similar são as deslocações dos ministros, secretários e subs em viaturas de negro funéreo brilhante e de alta cilindrada a qualquer provinciano destino nas entranhas deste país, longe do seu centro nevrálgico, Lisboa, - onde há excesso de políticos mas parece que faltam psicólogos - para fazerem o rescaldo do fogo, com palavras, é certo, que pegar na enxada faz calos nas mãos, mas quem dá o que tem a mais não é obrigado. É assim a igualdade de tratamento: o direito a chegar fresquinho ao destino é para todos os alegados culpados. E no fim de tudo bem avaliado psicologicamente a conclusão a tirar poderá muito bem ser que o grande incendiário é o eucalipto. (P.S. A sessão durou 10 minutos. Não podiam ter feito isso por Skype?!!)

8/23/17

Aos homens constipados


Aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'

8/17/17

João Quadros ou João Quadrado?

Percebi agora que um tal humorista Quadros anda nas bocas do mundo por ter chamado skinhead ou cabeça rapada ao Passos, assim criticando um discurso algo xenófobo que este fez, e que eu não li, mas, com aquela voltinha de trazer à colação na piada a mulher dele, doente oncológica, e, claro, para muitos o cancro é um dos assuntos que tem de ficar fora do humor, compreensível pelo sofrimento e impacto da horrível doença tanto no paciente como nos que lhe são próximos. Mas esta lista de assuntos que têm de ficar à margem do humor é uma coisa que me incomoda. Não é por fazer de conta que um problema não existe que ele cessa de existir: vamos excluir do humor temas como a doença, a deficiência, etnias, religiões, classes sociais, a sexualidade e outros? Ou marcar-lhe limites? E impor limites é atacar a liberdade de expressão? É um grande e apaixonante debate que esteve bem aceso nas redes aquando das mortes no Charlie Hebdo.

Não há dúvidas que o visado da piada em causa é PPC, não a esposa. É um ataque bem forte a PPC, uma crítica política vexatória mas certeira. Pior por acarretar um dano colateral ao envolver a esfera pessoal e emocional de PPC: daqui nasce o ultraje pois Quadros explorou uma sua vulnerabilidade, a fatalidade da esposa. Compreensível que as pessoas rejeitem um e outro, o primeiro por serem da cor política de PPC, o segundo, por entenderem que têm de existir limites para o humor negro, muitas vezes cruel e muito incómodo.

Eu não sigo os tweets do Quadros, só sei quem é pelas fotos que por aí circulam de um tipo guedelhudo, ar nicotinado e noctívago. Com frequência leio sobre ele comentários na maioria desprestegiantes, tipo imbecil, ordinário, besta. Mas não tenho opinião formada. Mas sei que nem todos somos Charlie, alguns de nós são  Charlie Brown. O humor nem sequer tem que gerar unanimidade mas convinha não perdermos a cabeça pois desatar a desejar a morte ao homem e familiares com todas as letras não faz de nós seres humanos mais sensíveis do que ele próprio, não é?

Despacito


Dei um saltinho à praia de Buarcos e no regresso deparei-me com estes senhores a tocar um medley dos Abba para uma grande plateia na esplanada do jardim. Cheguei a meio e quando me estava a sentir uma verdadeira Super Trouper, com vontade até de dançar com um dos turistas presentes que sabia todas as letras, acabou o medley. Trazia os ouvidos cheios de coisas como Si te vas yo también me voy/Si me das yo también te doy/Mi amor/Bailamos hasta las diez/Hasta que duelan los pies, tinha vindo pela marginal fora a cantarolar o Despacito, sonoridades ainda frescas na ponta da língua, patrocinadas pelos animados vizinhos de praia que hoje me couberam, quando ouvi a banda. Junto ao mar a minha tolerância dilata-se e os meus níveis de implicação derretem sob o sol, pelo que até curti os ritmos calientes e, já agora, o vigor da linguagem juvenil pontuada a alhos e folhas, o tratamento carinhoso ímpar. Ah, escusam de me vir dizer que quando eu era jovem também falava assim, eu ainda me lembro, apesar das brancas. Foi uma fase, ou talvez tenha sido uma frase, ou duas, isso já não asseguro. Mas a fase destes jovens é de muitas frases, muitas mesmo, embora repetitivas, tudo bem, meu caralho, vamos ao mar, ó minha grande vaca, sai mazé da minha toalha, minha gorda, ó meu boi, páaaara quieto, puta, tu passa o bronzeador, evidentemente que estão de férias, o linguajar colorido é que não está.  A meio da conversa uma das miúdas dizia à outra do grande escândalo: a não sei quantas foi para Humanidades. Mas ela nem sabe falar! Como podem ver já cheguei a casa e o vento mudou: isso nota-se perfeitamente pelas notas soltas de intolerância e de implicação. Ah, esta foi a última foto que fiz com a minha máquina de trazer no bolso: a puta deu o definitivo peido mestre. Ou entrou um grão de areia na engrenagem ou então fundiu-se devido à conjugação da alta temperatura com os ritmos calientes. Que merda, só me apetece falar mal.

8/13/17

Incêndio florestal - a praga do verão em Portugal




Nunca entendi o que move alguém a meter-se no carro para ir ver um fogo florestal. Esta atracção, que considero doentia, não é de hoje mas ontem não existia a motivação acrescida de filmar e partilhar o evento nas redes, o objectivo mais ou menos secreto de conseguir a glória fugaz de uma imagem viral. Onde, afinal, a estranheza quando pessoas ateiam os próprios gases para filmarem a breve flama e depois partilharem proeza com o mundo ávido de imagens insólitas?! Há uns anos largos houve um incêndio na serra da Boa Viagem e o instrutor de condução orientou-me na direcção da elevação, de onde se desprendia um penacho de fumo. - Mas está a arder, disse eu. - E então? Vamos lá ver. Segui a contragosto, com vontade de me negar, afinal o volante era meu. Mas a posição de subalternidade, o pouco à-vontade e experiência incipiente ao leme das quatro rodas venceram o meu sentido cívico e até temor. Tivemos de atravessar a ponte sobre o rio e a cidade. Já na subida da serra fomos ultrapassados por um carro de bombeiros e pelo som perfurante da sirene. - Chegue-se para a borda! Não viu que vinha lá um veículo em serviço de urgência? É surda? - gritou, subitamente alarmado. Lançou então a mão ossuda ao volante e guinou o veículo para a berma direita, para a orla das árvores. O carro imobilizou-se, uma nuvem de pó elevou-se ao redor e a mim deu-me uma valente travadinha. Eu, que nem queria estar ali, acabara de levar roda de incauta e empata. Acesa de raiva, a suar de calor e vergonha, de forma ágil e com precauções tomadas - como se já dominasse toda a faena rodoviária-, fiz uma rápida inversão de marcha. - Mas o que é que está a fazer? - perguntou ele. - Vamos regressar à escola. Acabou a aula. O instrutor meteu os olhos no pequeno Nokia cinzento com que usualmente brincava de uma mão para outra. Sempre enviava e recebia mensagens de forma frenética assim quebrando o marasmo de cada hora de condução. Não disse mais nada naquele dia, como que se tivesse extinguido a vontade de falar a par do fogo da sua curiosidade pela destruição.


P.S. Este instructor não era má pessoa, não quero que fiquem com má impressão do sujeito. Ensinou-me a conduzir. Infelizmente chumbei no exame de condução por excesso de velocidade entre outros erros, e tive de repetir! Já não sei como se chamava e nunca mais o voltei a ver. A fotografia é de ontem, tirada da varanda, só para não fugir à desditosa trend pirónoma dos últimos dias.
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"Os Bombeiros que são manifestamente poucos, para tantos incêndios, não podem chegar a todo o lado. Estão sempre rodeados de populares, o que é bom. Só que, ao invés de ajudarem a esticar e recolher mangueira e material de combate, apagarem pequenos reacendimentos, limitam-se a registar vídeos, e fotos para mais tarde publicarem nas redes sociais. Não sou contra mas, antes, ajudem os Bombeiros que nos dias que correm, estão a atingir a exaustão e não chegam a todo lado. Amigos um incêndio florestal não é um espectáculo circense, mas sim um drama irreparável para a sobrevivência humana.
Vão até nós, mas, por favor, não levem os carros para não atrapalharem o nosso dificil trabalho. "

Acácio Monteiro, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Brasfemes

8/5/17

O equidna vai à praia




Quando logo mais forem à praia e não se lembrarem de adivinha melhor para contar à miúda que acabaram de conhecer, podem usar esta: que animal tem bico e põe ovos mas não é ave, tem bolsa mas não é canguru? Resposta: o equidna. Eu testei uma outra adivinha sobre o bicharoco em causa com um cinquentão bem apessoado mal acabado de conhecer, foi uma espécie de ice-breaker, enquanto devorávamos um ouriço ali para os lados da Ericeira: não é homem mas animal e tem título real. Que bicho é? Ele não fazia ideia. É uma espécie de equidna da Indonésia que recebeu o nome de Sir Attenborough, o naturalista, - disse-lhe eu. Devolveu-me a cultura animal com um negro laudo sobre uma tal Equidna, o corpo metade jovem mulher, a outra metade, uma serpente. Vivia numa caverna no ventre profundo da terra, longe do olhar dos homens e da atenção dos deuses. Casou com o deus Tifão, tornando-se a mãe de todos os monstros, por exemplo, Cérbero, o cão de três cabeças, que guardava as cavernas e grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Hades, o mundo dos mortos, ou Éton, o abutre que comia diariamente o fígado do condenado Prometeu. Equidna e suas crias possuíam uma natureza terrível e adoravam devorar viajantes inocentes. Fiquei depois a saber que o homem era professor de História com uma paixão bicuda por mitologia clássica. Um clássico. Ele ficou desapontado quando lhe disse que não, eu não era bióloga e antes jurismamífera de formação e cheia de paixões bicudas por tudo e por nada.



Foquemos agora neste trôpego video de verão: o equidna foi à praia. E porque não? O equidna até sabe nadar. Esperem tudo deste peculiar animal um pouco ave, um pouco ouriço, um pouco canguru. São monotremados, é assim que se chama a esta ordem de animais que têm cloaca por onde excretam e também saem embriões envoltos em casca que depois ficam a viver na bolsinha da mãe: terminado o choco são do tamanho de um feijão. Já agora, “trema” quer dizer abertura. Não confundir com monotramados: os “monos tramados” somos nós, macacos deslumbrados e cegos com as luzes da cidade. Regressando aos equidnas, os pobres são meio ceguetas mas equilibram o défice de visão com audição aguçada - já Diogenes dizia que nós temos dois ouvidos e uma língua para que possamos ouvir mais e falar menos - e olfacto perspicaz. Têm uma língua muito comprida e pegajosa, mesmo ajeitadinha para caçar formigas e térmites e minhocas. Vêm trilhando o seu caminho desde tempos pré-históricos, passo a passo, perna entroncada e curta, garras longas, aguçadas, e corpo espinhoso semelhante ao de um ouriço comum. Quem sabe por ser um bichinho solitário que não se mete na vida dos outros - já Sartre dizia que o inferno são os outros - é assim, longevo, chamam-lhe um fóssil vivo. Os testículos dos equidna ficam na região abdominal e o pénis encontra-se na cloaca. Pode parecer uma experiência laboratorial algo exótica ou controvertida da mãe Natureza mas funciona porque eles povoaram a Tasmânia, a Austrália, a Indonésia e a Nova Guiné. A estranheza não se fica por aqui. Estas curiosas bolas espinhosas – se ameaçados têm duas tácticas, ou se enrolam numa bola hermética, escondendo o focinho bicudo e a barriga vulnerável, ou se enterram rapidamente no chão, pois são uma espécie de mini TBM animal, TBM, são aquelas máquinas perfuradores de túneis, do género das que operaram o milagre de unir a ilha inglesa com a França, - não têm mamilos e antes glândulas mamárias para a produção do leite. O líquido sai por poros e escorre nos pelos da região abdominal das fêmeas. Imaginem esta solução nos humanos! Se amamentar em público já é censurável e abjecto para tantas boas almas e o líquido sai de um par de tetas bem acabadas, imaginem, imaginem, se conseguirem, leite a escorrer dos nossos poros e nossas crias humanas a lamber da pele que nem gataria sôfrega. A Natureza quis proteger-nos de imagens potencialmente chocantes mas nós, sempre brilhantes na nossa perversão, fomos logo encontrar defeitos na perfeição. Pobres equidnas, que espectáculo pegajoso que não deve ser, uma porcaria pegada. Mas, por outro lado, devem ficar com a pele bem macia da proteína do leite. Boa praia e boas adivinhas.

7/2/17

O casamento do Bruno Ornelas

Vocês sabem lá o que me sucedeu ontem. Cheguei aos Jerónimos atrasada - o taxi chocou com um tuk-tuk e ficou de tal ordem amachucado que eu acabei por terminar a corrida no tuk-tuk - e, como se isso não bastasse, não pude entrar no casório do Bruno Ornelas. À entrada da igreja de Belém estava um detetor de metais para verificar se alguém levava consigo armas ou objetos perigosos para a integridade de noivos e convidados. O segurança teve a lata de me dizer que tinham enviado mensagem a todos os convidados, alertando para as caprichosas medidas de segurança, mas é mentira, eu nada recebi. Por momentos pensei que me tinha perdido e que estava no aeroporto, ou coisa assim: é sabido que em Lisboa eu não me oriento. Aquilo desatou a apitar e a fazer luzes e foi uma vergonha. Por mais que eu afiançasse que não tinha granadas comigo, nem mesmo o corta-unhas, eles já não me deixaram entrar. Regressei a casa no Expresso das 18.30 horas: não tive problemas para entrar no autocarro mas até já estava a roer as unhas de nervoso quando entreguei o bilhete ao motorista. E encomendei eu esta pecinha da Amazon de propósito para a ocasião! Agora resta-me esperar pela Primeira Liga. Nas Antas serão decerto mais compreensivos.

7/1/17

Carro de compras com rodinhas electrónico: preciso!

Há uns tempos vi aqui na internet uma geringonça electrónica com rodinhas que nos seguia para todo o lado, uma espécie de mala do futuro. Mas é óbvio que os supermercados têm de copiar a ideia. É que costumo encostar o cesto das compras aqui e ali para ir fazer a minha prospecção de víveres em modo mãos livres, e, não raro, acontecem cenas tristes: já por diversas ocasiões andei a deitar as minhas compras no cesto dos outros. Hoje, quando dei por mim junto da caixa e já com parte das compras a deslisar no tapete em direcção às mãos da operadora, verifiquei que me tinha apoderado de um cestinho alheio, de homem: um creme de barbear e um pack de pilhas aguardavam no fundo. Fui tomada por uma aflição súbita como se tivesse roubado aqueles dois produtos! A menina desenvolta começou a registar os meus brócolos, os tomates já corriam para ela com velocidade nunca vista pelo tapete de borracha adiante e eu queria um botão vermelho de Stop mas não há. Então sorri acanhadamente e menti em voz baixa, como que para emprestar seriedade às minhas palavras, que era só um minuto, já voltaria: tinha deixado a carteira nas frutas. Lá fui a serpentear pelo supermercado, sem esperar pela resposta, a puxar o atrelado velozmente que nem o cavalo do Messala pela biga do nobre romano, no Ben Hur. O problema é que a zona das frutas e legumes é uma de vários obstáculos a contornar, uma verdadeira gincana. Às voltas, tentava lembrar-me onde tinha estacionado a minha biga e ao mesmo tempo ia deitando o olho aos cestos que circulavam por ali de forma algo negligente, e a outros estacionados na berma. Observei que os homens às compras, poucos, não ostentavam nenhum sinal de particular aborrecimento. Onde estaria o meu cestinho com rodas? Ó Nossa Senhora do Abacate! Só agora me ocorria que talvez a namorada extremosa do homem, a esposa diligente ou a filha simpática fossem as compradoras. Bolas, bolas. Apurei a vista e perto da zona dos congelados identifiquei uma jovem senhora de túnica, e ar-de-quem-ainda-iria-à-praia-hoje se encontrasse o cesto das compras, a olhar friamente na minha direcção. Um arrepio percorreu-me o cérebro despertando-me para a solução: era isso. Encontraria decerto o meu cesto perto da tulha dos peixes aonde eu tinha estado a comparar preços antes de ter ido pesar as frutas e os brócolos. Devia ser esse o epicentro do imbróglio! Fiz marcha atrás e contornei os produtos biológicos já em excesso de velocidade. Com sorte não derrapei mas dali consegui ver um cesto verde esperançosamente à espera. Aproximei-me de manso e reconheci o gengibre: ó felicidade! Ali estavam as minhas restantes compras. Troquei de cesto com a naturalidade e a destreza de um espião da guerra fria habituado a andanças comprometedoras. Passei então rapidamente pela jovem da túnica cuja voz, toda sorrisos, podia ouvir ao telefone: o seu olhar era agora temperado. Apressei-me a alcançar a caixa onde uma pequena mas incomodada fila de duas almas, um cestinho e um carro de compras, me aguardava. Desculpas depois e despachada dali ainda fui tomar um café retemperador e quando saía do hipermercado vi que descia um jovem magricela em calções de ganga pelo joelho e t-shirt preta na passadeira rolante, mesmo à minha frente. Numa das mãos levava as chaves do carro, e na outra, um saco de laranjas, um creme de barbear e um pack de pilhas.

6/26/17

Anedota do Bocage



A política portuguesa anda a ficar cada vez mais descuidada. Certo dia estavam João Marques e Passos numa festa quando este emitiu uma flatulência. Muito desconcertado viu o amigo João Marques e dirigiu-se-lhe rogando que assumisse a culpa pelo sucedido, para limpar o ar. Prontamente João ofereceu-se para assumir o acto. E então chegou-se ao centro da sala, bateu palmas, e disse em voz alta:
- Minhas senhoras e meus senhores. Quero pedir muitas desculpas. O peido que o Passos deu, não foi ele, não: fui eu! 
Bocage não teria dito melhor.

6/22/17

Fazer a monda nas redes sociais



Agnes Arabela Marques e Castelo Branco são como ervas daninhas, plantas que crescem fora de contexto e de forma indesejada. Competem pelo espaço mediático, pela luz, a nossa atenção é água para elas. Se permitirmos podem ofuscar as outras com os seus comportamentos exóticos e viçosos, assim dando por cumprida a sua missão na Terra. Existem diversas técnicas para lidar com estas pessoas daninhas: a monda manual é a melhor opção para eliminar as suas manifestações das redes sociais e do terreno pantanoso de alguns jornalecos online. Ó meus amores: indignem-se, soltem interjeições mas não façam eco, não partilhem estas florações patéticas. É tanta a mediocridade que assim trazemos para o nosso jardim! Se não podemos impedir que germinem evitemos a proliferação.Eduquemo-nos para ser sábios:ignoremos já que não podemos punir e muito menos educar estas formas de vida. Não lhes demos mais luz, por favor. Elas acabarão por secar, no seu contexto e morrer, sim?

6/21/17

A politiqueirada portuguesa é...


"Pensar o meu país. De repente toda a gente se pôs a um canto a meditar o país. Nunca o tínhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de súbito foi isto. Mas para se chegar ao país tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que não. Nós é que temos um estilo de ser medíocres. Não é questão de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. Não é questão de se ser estúpido. Temos saber, temos inteligência. A questão é só a do equilíbrio e harmonia, a questão é a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado é o ridículo, a fífia, a «fuga do pé para o chinelo». O Espanhol é um «bárbaro», mas assume a barbaridade. Nós somos uns campónios com a obsessão de parecermos civilizados. O Francês é um ser artificioso, mas que vive dentro do artifício. O Alemão é uma broca ou um parafuso, mas que tem o feitio de uma broca ou de um parafuso. O Italiano é um histérico, mas que se investe da sua condição no parlapatar barato, na gritaria. O Inglês é um sujeito grave de coco, mas que assume a gravidade e o ridículo que vier nela. Nós somos sobretudo ridículos porque o não queremos parecer. A politiqueirada portuguesa é uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura. Deus. É pois isto a democracia?"

Vergílio Ferreira, “Conta Corrente II” (1982-1985)

6/15/17

Recrutamento



Um "prestigiado cliente" quer vendedores em part-time para trabalhar na Foz, no Porto. Solicita que tenham como habilitação MÍNIMA a licenciatura, experiência anterior em vendas é factor preferencial, também elevada resistência ao stress, sentido de responsabilidade e boa capacidade de comunicação. Eu até me candidatava porque é no Porto, aquela cidade que eu adoro, mas sei que não faltam por aí pessoas habilitadas com mestrados que anseiam por desafios profissionais gratificantes, tenho a certeza que era logo arredada na primeira varredura do recrutamento. Esqueci-me de mencionar que é para vender pipocas apesar de não pedirem que as pessoas saibam fazer pipocas, ah, pois é, devem dar formação no posto de trabalho.

6/2/17

Arnold Schwarzenegger contesta escolha deTrump sobre clima




O Arnold surpreendeu-me. Eu e o meu datado preconceito de que o cérebro dele mirrou na proporção em que os músculos incharam e de que não pode vir de lá grande coisa. Já devia ter vergonha. Trump a invocar que o Acordo de Paris é um mau negócio para os EUA e que o quer renegociar é hilário. Do que sei, o Acordo não passa de uma espécie de “acordo de cavalheiros” em que os países não se obrigam propriamente a agir, é uma declaração de intenções. A meu ver isso não lhe retira grandeza. A honra de cada Estado aderente seria então demonstrada, primeiro, pelo reconhecimento da necessidade de agir e depois, liberto do cumprimento forçado através de multas e outros mecanismos, pela escolha de fazer o que é melhor para o futuro dos seus cidadãos. Em verdade num mundo perfeito não deveriam ser precisas medidas punitivas para forçar o cumprimento. Quantas vezes as leis são violadas sem pejo e pagas as multas apenas para se seguir nova reincidência. Se a perfeição é uma quimera então aprendamos todos a fazer da imperfeição o combustível para alcançar aquela e não a chama em nos imolamos. Sair de um Acordo voluntário para o renegociar quando é mais fácil estar à mesa para o fazer do que pedir para me sentar nela de novo, não parece fazer grande sentido. A não ser que Trump não queira renegociar nada e antes fazer o que bem lhe apetece, ele e o seu círculo de amigalhaços investidores. Infelizmente as cidades mineiras dos EUA onde as pessoas entretêm os dias a matar o tempo olhando pela janela não serão ressuscitadas por esta sua decisão. Tenho realmente pena dessas pessoas. São apenas seres humanos como eu que só votaram em Trump porque sonhavam com uma mudança e nem sou capaz de as censurar. Mas a mudança não passa por reanimar cidades mineiras ou continuar a esventrar a terra em busca de petróleo e antes por reconverter todas as indústrias sujas e poluentes em alternativas mais limpas quer durante o processo de extracção quer durante a utilização. Isto é tão básico que nem era preciso admitir o aumento do aquecimento global ou dos gases de estufa para o tornar mais necessário ou mesmo urgente. Apostar nisso é que seria entregar a essas pessoas um suplemento de vida, um futuro para os que desesperam nessas zonas economicamente deprimidas e seus descendentes. Há 30 anos atrás a minha avó que nasceu em 1914 e que trabalhou nos campos e que conhecia bem o ciclo das estações e das colheitas já me dizia que o clima estava a mudar. Ela não leu relatórios científicos mas interpretou os sinais da Natureza. Se os tivesse lido teria percebido melhor. A evidência é, passados 30 anos, maior. Se a subida do nível dos oceanos é até certo ponto inevitável é, todavia, imperioso fazer o impossível para abrandar esse processo. Vivo numa zona de costa, a erosão já é muito grande em algumas zonas e muito provavelmente, aqui, e noutras cidades costeiras de todo o mundo, num futuro mais ou menos próximo, vai acontecer o que hoje acontece em Miami Beach onde a água do mar tomou conta das ruas e se gastam fortunas em obras para manter a cidade seca, uma solução que durará, segundo os engenheiros locais, 500 anos. Leram bem: 500 anos. Mas se até um actor de cinema que ganhou notoriedade à conta da sua massa muscular consegue fazer um filme mais limpo sobre o futuro, não tardará que todos estes fósseis que permanecem reféns do carvão e da indústria do petróleo sejam condenados à extinção. É a evolução natural das coisas. O assunto merecia uma argumentação mais apaixonada mas hoje não posso. Ouçam o Arnold. (Cliquem)

6/1/17

Armando Silva Carvalho - poemas



LEITURA DE JORNAL

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?

100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar metastável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.

Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.

Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez o único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.

É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.

Abençoado profeta, só eu não sei por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor do universo.

POEMA QUE FOI CURTO

Num poema curto a corrente do sangue corria
como um planeta levando no dorsal
a filosofia pública da hora,
e a luz nua e directa incidia sobre o corpo,
real, absoluta.

Hoje o poema teima sempre em ser maior,
e a história, o tempo, a memória e o verso porque é velho,
ocultam-lhe a idade nas curvas irreconhecíveis
dum vulto.
É sempre cada vez mais longa a maratona,
e as insistentes palavras

parecem desistir enquanto avançam.

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O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.
Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.

5/17/17

Protestem contra o Correio da Manhã: escrevam para a ERC


Já vai talvez um pouco tarde mas convido os frequentadores do meu boteco a perderem algum tempo a escrever para a ERC e a repudiarem o sucedido: http://www.erc.pt/pt/balcao-virtual/formulario-de-participacoes
Para quem não sabe: anda aí um video desde domingo que foi filmado num autocarro, na cidade do Porto, e que mostra um par de jovens em actividade sexual. Diz-se que estão bêbados. Ao redor do espectáculo outros jovens de ambos os sexos assistem, comentam, filmam. O Correio da Manhã divulga assim: "Vejam o video".
Não foi a primeira nem vai ser a última vez. Televisões/jornais armados em guardiões da justiça; sites/blogues/páginas “caça-Likes” mascaradas de arautos da denúncia/linchamento dos perpetradores ou solidariedade para com a vítima. Transformam cada incidente num espectáculo (triste) mas só até ao próximo, pois passado o pico de interesse nunca mais se preocupam em apurar se se fez justiça. Nem interessa mencionar o crime da divulgação de imagens colhidas e divulgadas de forma ilícita de que ninguém quer saber, isso não se usa por cá. Todos juntos promovem uma imensa onda de curiosidade nojenta que alimenta a partilha e viralização de videos ou fotos de teor sensível. Alguns ainda têm engenho para recriar a situação em modo de entretenimento – “Vejam o vídeo!, refere o CM; um site fez uma aparentemente nobre colagem de fotos de alguns dos envolvidos e até se deu ao trabalho de traduzir um extenso texto para inglês, deve pensar que isto é o Eurofestival. O objectivo evidente é obter mais partilhas.
É curioso que não vejo nenhum destes jornais, TV’s, sites/blogues/páginas a publicar, antes da onda de festanças bem regadas a bebida, ou quando mais lhes parecesse próprio, colagens criativas e textos incisivos no sentido de alertar acéfalos e acéfalas ( termos utilizados na colagem) para beberem com moderação, vigiarem os seus comportamentos, manterem o decoro,- não conhecem sequer a palavra mesmo que quisessem usá-la, não saberiam - ou seja, a divertirem-se sem colocar em causa a sua própria dignidade ou a dos outros, ou ajudando os outros a conservá-la no meio da diversão, seja qual for o seu sexo dos envolvidos. Receiam ser chamados retrógrados se apelarem a alguma contenção, temem ter de lidar com aqueles que facilmente se enojam com o tom paternalista, moralista, salazarista do apelo e logo se dizem oprimidos! É mais fácil alinhar pelo discurso de que "faz parte", que a malta nova precisa de escapes, de se estragar, que é normal da juventude pisar o risco, que todos o fizemos, que é assim mesmo, que cada um é livre de viver a sua vida, carpe diem. Isto é que é simpático, ninguém quer exaltar o desejável exercício de algum bom senso que até parece estar conotado com peçonha. Mas quando estoira a bronca, ui, vamos lá mostrar solidariedade com a vítima, - mesmo que isso equivalha a encher os ecrãs do universo com a sua cara, penalizando-a - humilhar os abusadores, apelar a enxertos de porrada caso se avistem na curva e outras mobilizações.
Eu, que sou apenas, e agora, uma grande, velha e gorda bota de elástico, uma que já não enxerga as coisas como elas são certamente em virtude da minha miopia - e realmente não vi o video todo nem com muita atenção, - não sei dizer se os dois jovens do autocarro estavam com os copos, se se conheciam, se havia alguém a ser abusado ou se tinha havido consentimento, se são menores ou maiores.Mas muita gente tem muitas certezas pelo que admito que talvez saibam mais do que eu. Entendo que alguém deve averiguar isso, alguém de direito, e, caso haja matéria, que chame os dois à pedra, e/ou o autocarro inteiro, os pais, as mães, os amigos, a escola, em suma, investigue-se. Queremos todos um esclarecimento e um culpado ou vários: a sociedade, as marcas de cerveja, as drogas leves e pesadas, as faculdades, a família, a geringonça, o Benfica, a internet e as tecnologias, e, entretanto, não se esqueçam dos jovens. Enfim, que resolvam isso de forma limpa para nosso sossego porque estávamos todos tão felizes a amar pelos dois e agora estamos a detestar o mundo inteiro, ou pelo menos, um autocarro inteiro. A mim o que me incomoda sobretudo é ter visto que num autocarro cheio de gente ninguém foi capaz de se chegar à frente e dizer: “Ó malta, desculpem lá mas não é o lugar para tu estares com a língua na goela dele nem tu com a mão na rata dela, vamos lá a acabar com essa merda. “ É triste pensar que estes jovens "espectadores" não têm qualquer maturidade ou sensibilidade e que consideram normal uma cena que podiam e deviam ter evitado. É tudo giro, é tudo brincadeira, fazer, ver, filmar e partilhar, bué de fixe, mesmo.
Não estou muito alarmada mesmo assim. Nem sempre o futuro de uma pessoa se determina por um erro. Vão crescer, não? É o que espero. Nada os impedirá de serem excelentes seres humanos amanhã. Já vi cenas assim. Vi jovens que se não foram efectivamente vítimas se sentiram decerto como tal depois de uma noite de excessos, outros que festejaram as suas façanhas por dias e alguns que se esqueceram de tudo mal o álcool se apagou das veias porque não havia nada para ser mais recordado. Fui jovem e estudante académica e nada disto é novo. Não ser novo não equivale a dizer que seja bonito. Mas realmente novos são os telemóveis, as redes sociais e a imprensa rasca. Mas já nos anos 80 havia jovens a foder às sombra das capas negras contra as árvores e tapumes do Parque ou no chão, e gente a vomitar-se de cima abaixo pela noite dentro e gente a mijar do alto para o Mondego bexigas a transbordar de cerveja, e lixo de copos de plástico e garrafas por todo o lado, e triunfos e amargos de boca na noite seguinte, alguns que o tempo faria esquecer outros a deixarem marcas profundas. Mas havia também sonhos e ilusões. Tudo continua, agora ampliado pelas filmagens dos telemóveis que as pessoas depois partilham sem parar, umas porque são apenas parvas, outras porque sabem perfeitamente o que estão a fazer e não se coíbem, e, finalmente, por sites, páginas e blogues que se aproveitam disso com claros fins de lucro publicitário, e por fim pela comunicação social sem freio ou ética ou réstia de profissionalismo. Vamos lá escrever para a ERC. Vai dar multa e da próxima vez a cena vai repetir-se e a gente escreve novamente. Estejamos atentos porque o nosso papel é importante: não podemos vencê-los mas podemos combatê-los.

5/13/17

3/20/17

Dia internacional da felicidade



Esta Segunda-feira, dia 20 de Marco 2017, celebra-se o dia Mundial da Felicidade. O Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira, Leiria, em colaboração com o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, propoe o seguinte desafio: 

"Com um pequeno gesto, faça alguém feliz!". Após a realização de um acto de generosidade em prol de alguém, sugere-se a participação numa pequena investigação, acedendo à página do Agrupamento ou da Escola Secundária de Domingos Sequeira, a fim de preencher um pequeno questionário. 

O evento enquadra-se num conjunto de ações públicas e educativas para a tomada de consciência que "a busca da felicidade é um objectivo humano fundamental", conforme preconiza a ONU (Organização das Nações Unidas). Pretende-se, assim, sensibilizar os alunos e a população em geral para a importância que o investimento nas relações interpessoais tem para a promoção da felicidade e do bem-estar. Efectivamente, os estudos indicam que os bens relacionais são mais importantes para uma vida com sentido do que os bens materiais.

COM UM PEQUENO GESTO, FAÇA ALGUÉM FELIZ!
PARTICIPE NUMA INVESTIGAÇÃO: depois de ter contribuído para a felicidade de alguém,
aceda a uma das seguintes páginas e preencha o questionário
https://www.aedsequeira.com ou http://www.esds.edu.pt

3/6/17

As canções do Festival da Canção



Desafio: pega nos títulos de todas as canções que venceram o Festival e escreve uma merda qualquer.

Se as palavras do amor fossem uma Oração. Se iluminados pelo Sol de Inverno, Ele e Ela descobrissem que O vento mudou. Mas a vida não passa de uma Desfolhada portuguesa onde nem todos encontram um milho-rei. Onde vais rio que eu canto nas horas mais cansadas do dia. A Menina do alto da serra caminha ao correr do Tejo. Procura a Festa da vida que a festa na cidade é uma Tourada. Sai do call center sem alma, Flor de verde pinho que morreu antes do tempo. Trazer Portugal no coração não é mais um hino, é um caixão. Olha o horizonte e quer atravessar o mar. A deshoras Lisboa bebe-se em bares, ela entra no Dai-li, Dai-li Dou. Ao volante para casa finta a bófia duas vezes, Sobe, sobe, balão sobe, soprar é proibido. Encontrou Um grande, grande amor entre o primeiro e o último copo. A vida toca em Playback quando desperta a meio da noite, Bem bom, quase parece feliz. Esta balada que te dou é o teu milho-rei, diria o amante, mas no quarto apenas Silêncio e tanta gente só. Olha-o entremeado no escuro e murmura, Penso em ti amanhã, hoje não, Não sejas mau para mim. Estão deitados Neste barco à vela chamado cama, ela ouve-o respirar entre lençóis, lê-lhe nos lábios, Voltarei a ti, como em outros tempos o marinheiro Conquistador que zarpou do bairro de Belém, terá dito a Lusitana paixão. Ela sabe que este rio que nasce Amor d’água fresca e que abraça A cidade(até ser dia) acaba perdido no mar, que este dom de Chamar a música aos corpos de pele Baunilha e Chocolate, morre num amplexo. O meu coração não tem cor, pensa ela Antes do adeus. Se eu te pudesse abraçar todos os dias, esquecer Como tudo começou! Na cidade ninguém tem Sonhos mágicos mas eu Só sei ser feliz assim. Deixa-me sonhar (só mais uma vez), acreditar que Foi magia. A noite fez-se para Amar. Ora, mulher, Coisas de nada, diria o amante se ainda estivesse ali. Fica, Dança comigo até ao fim da noite, serei a Senhora do mar que o desejo te trouxe, vem, vamos percorrer juntos Todas as ruas do amor antes que a maré mude de novo. A luta é alegria mas a Vida minha não é senão espuma. Quero ser tua para sempre mas Há um mar que nos separa. E amanhã já de nada me servirá Amar pelos dois.

3/3/17

Não está nada bom para a praia


La La Land mostrado antes de Moonlight, em Londres!



Esta brincadeira no Rio Cinema, em Londres – que passou uns segundos do La La Land antes de projectar Moonlight - trouxe-me à memória um episódio que teve lugar talvez ainda em 1999 ou já em 2000. Por essa altura havia sessões de cinema nesta vetusta colectividade figueirense, o Grupo Caras Direitas, que já tem mais de 100 anos. Lembro-me de ter lá visto Estranhos prazeres, A raiz do medo, City Hall, Ed Wood, Casa de Doidas e muitos outros filmes. Talvez fosse um sábado ou domingo quando me dirigi à bilheteira onde comprei o ingresso uns minutos antes do início da matinée. Os bilhetes eram uns rectângulos de papel em azul ou rosa, pró menino e prá menina, talvez também noutras cores. Tinham escrito “Volte sempre” – evidentemente que só por causa disso é que eu voltava; e “conserve este bilhete”- obviamente que por causa disso é que ainda os guardo. Havia também uns feios folhetos de tipografia que eu adorava porque mostravam a lista de filmes para todo o mês e me punham logo a fazer planos. Lia-se em alguns deles “Serviço de bar” e "Pipocas Popcorn USA” e “Sala equipada com Dolby Stereo Digital”. O importante a reter é que os bilhetes não tinham impresso o nome do filme, aliás, havia espaços a serem preenchidos que ficavam sempre em branco: a data, o preço. Apareciam por vezes uns números sumidos carimbados no espaço a seguir a Sessão, dois pontos. E era tudo. Fiquei de bilhete na mão, em pé, no hall da colectividade, a fazer tempo, mesmo atrás de mim estava afixado um grande cartaz do Magnolia, mas havia outros. Acaso estão recordados das cenas iniciais deste deste filme? Um narrador elabora sobre acasos e coincidências, sobre tudo estar interligado e fazer parte de um todo? E que a vida é estranha e tal, tão estranha quanto pode ser este caso de uma mãe que mata o filho quando ele se prepara para cometer suicídio? Bem, estava ansiosa por ver a sequência inicial de que todos falavam, era o novo filme do Paul Thomas Anderson sobre gente patética de perdida, viciados e misóginos...e a chuva de sapos. Entretanto aparece o sr. Gaspar, o então presidente da colectividade, por quem eu tinha imensa simpatia, e ali ficámos a conversar sobre o filme espectacular que eu ia ver, os dez minutos foram consumidos em segundos pelo entusiasmo com que todos os cinéfilos falam destas coisas nestes momentos cruciais que antecipam a grande revelação, isto é, que já se viu todos os filmes do tipo, que alguns dos nossos actores predilectos estão lá, que alguns críticos nos jornais dizem que a história é densa, que um amigo achou o filme muito alucinado, que uma amiga adora a banda sonora. E como para bom entendedor meia palavra basta, ninguém entrou em detalhes. Esgotado o tempo, despedi-me do caro cinéfilo, subi as escadas e fui a correr sentar-me no balcão onde as cadeiras eram novas e de um vermelho confortável, não de madeira histórica e de estofos forrados de napa. Não me recordo se havia mais alguém no balcão, fecharam-se as luzes. Ali o filme começava logo após a abertura das cortinas, se é que as cortinas eram corridas como manda a tradição, creio que sim, não havia cá 20 minutos de trailers nem aquele recado para desligarmos telemóveis pois ainda não tinham chegado os tempos da modernidade, eram poucos nos bolsos e ainda sem internet móvel para os animar, por lá ficavam, afinal era o ano de 1999 mas a Lua ainda estava na nossa órbita, ou talvez fosse 2000 mas a odisseia no espaço estava adiada muito além de 2001. E então tem início a ansiada projeção e surgem imagens de Boys don’t cry, do que lembro, nocturnas mas posso estar a inventar fruto da má memória. O que não estou a inventar foi o sentimento de estranheza que me tomou. Supus estar a ver o trailer do próximo filme a ser exibido. Uma pessoa arranja sempre a melhor desculpa possível quando quer iludir a realidade! Infelizmente o trailer não terminava porque não era o trailer, era mesmo o filme com a Hillary Swank, - muitos anos antes de ser a mulher do milhão de dólares - que estava a ser exibido! Nem sequer me tinha passado pela cabeça ver aquela fita pelo que, contrafeita, lá assisti até final à história da miúda que se fez passar por miúdo e que deu mal, um argumento inspirado em factos verídicos que lhe valeu o Oscar da melhor interpretação feminina. Quando o filme terminou saí da sala completamente desconsolada: ninguém me tinha trocado as voltas, mas eu tinha trocado alguma coisa, e, hoje, tantos anos passados, ao relembrar a abertura do Magnolia continuo sem perceber o que porquê de um tal equívoco, se nada acontece por acaso.

Cartaz Magnolia

2/28/17

Nada a dizer sobre os Oscars 2017


Livros em segunda mão e extraterrestres


Os extraterrestres estão entre nós. Andam disfarçados de pessoas mas é fácil perceber quando estamos na presença de um. Quando se cruzarem com alguém que passa parte da sua curta vida no Planeta Terra a encaralhar processos: bingo! Isto é verificável em todas as áreas da vida, todas mesmo, e tristemente frequente. Estou certa de que entre meia dúzia de nós encontrávamos material para um vasto compêndio sobre vida alienada em poucos minutos, evidências ultra-científicas. Portanto não vos estou a transmitir nada de novo.

Tudo começou quando a 25 de Fevereiro decido comprar um certo livro em língua inglesa, não interessa o título, é uma tradução de um autor português de renome. Como é hábito começo por procurar nas ofertas em segunda mão, online, porque desconfio que uma batida às lojas aqui da cidade não dará resultado algum, nem novo nem velho, e porque gosto de comprar livros usados: poupo dinheiro, prolongo a vida útil do livro, faço bem ao Planeta. A sorte boceja-me, como disse Jesus, e encontro o livro à venda. Examino tanto quanto me é possível e parece-me em boas condições. Envio uma mensagem ao potencial vendedor, sucinta e explícita:

- Boa tarde! Estou interessada em comprar o livro. Se ainda o tiver pode enviar-me o seu NIB para eu proceder à transferência? Depois eu envio o papel do Multibanco e quando o receber faz o envio do livro. Pode ser assim? Possivelmente só vou ao Multibanco na segunda-feira. Aguardo resposta.

Um dia depois lá chega a mensagem semi-encriptada e oriunda de uma galáxia far, far away mas eu ainda não sabia:
- Olá Isabel. Tal como mencionado no anúncio, preferia em mão, pois tenho de pagar para me dirigir aos correios e tenho de lá ir 2 vezes, pois cada livro tem o seu peso e esse é pago pelo comprador.Onde se encontra a Srª? Eu estou na zona de (...) estando longe aceito a transferência, mas não necessita enviar o talão, eu só envio o livro quando consulto o depósito. :)obrigada.

Compreeendo. Ir aos CTT é sempre uma chatice porque agora a gente já nem escreve cartas, já nem compra selos, já nem sabe onde fica a estação dos mesmos e, quando dá com ela, a loja vende de tudo. É de tal forma que não raro nos sentimos perdidos, por vezes é difícil perceber se entrámos na estação dos CTT ou antes no shopping do bairro. E, pois é, a deslocação. No mínimo gastam-se calorias para ir aos CTT, água, mas também a gasolina, ou energia solar, ou o hidrogénio ou o óleo de fritar batatas na nave especial. A deslocação e o tempo, porque tempo é dinheiro. Por obséquio, cobre lá isso, inclua no preço do livro, mas não faça é disso um bicho de sete cabeças. Quando vou comprar as batatas ao Jumbo elas também não rebolaram sózinhas até lá, pago também pelo passeio das batatas. É pena mas o teletransporte ainda não funciona a partir do desktop, o livro tem mesmo de ser levado aos CTT.

Habituada a estas andanças, e à semelhança do que costumo fazer com os potenciais vendedores, atrevo-me a sugerir uma alternativa para poupar  voltinhas inúteis ao sujeito:
- Olá. Não precisa de ir duas vezes. Eu tenho comprado muita coisa neste site e faço sempre assim: pago o que os vendedores pedem pelo objecto. Faço a transferência e envio o talão. Os vendedores vão aos CTT - depois de terem o talão ou verem o depósito - e fazem a expedição da encomenda: pesam e dizem-me só depois quanto é. Eu então pago os portes quando recebo a encomenda. É só uma ida aos CTT. Os livros pagam muito pouco pois têm uma tarifa especial - deve pedir essa tarifa. Por isso mesmo que eu não lhe pagasse os portes - coisa que não farei - não teria muito prejuizo. Também não preciso do livro com urgência pelo que se tiver uma altura mais conveniente para ir aos CTT - dentro de 3 dias , uma semana - pode dizer-me e eu aguardo. Mais que isto não posso fazer. Mas o sr. é que decide. Aguardo. Vivo na Figueira da Foz e não conheço ninguém na (....) que possa servir de intermediário.

Daí a um ror de tempo a resposta materializa-se na minha caixa de email e é aí que tenho a certeza que topei com um extraterrestre das vendas em segunda mão online. A Figueira fica longe mas este ser vive noutra galáxia. Era por demais uma chatice pagar para se deslocar e ter de ir duas vezes aos CTT mas eis que subitamente o longe se fez perto. Porquê? Porque o livro é grosso. Ora vamos lá saber quanto é que custa fazer a expedição do Atlas Klencke!

-Sim, a Figueira fica longe :) Eu vou saber qt custa enviar o livro e assim q souber eu digo-lhe e sim, pela tarifa especial a q os livros têm direito. Assim qd fizer a transferência acrescenta esse valor (este livro é grosso) Obrigada :)

Pronto. Está tudo grosso. Emburro em frente ao ecrã. A minha cabeça explode em impropérios mentais como uma supernova, o equivalente a pelo menos duas linhas de emoticons de várias cores,10 GIFs e mais uma linha de Trash Doves! Respiro fundo, recomponho-me. Ok, Belinha, afinal tu nem tens pressa no livro. Seja lá como o marciano quiser.
-Então está bem. Como lhe disse não tenho pressa. Faça conforme lhe for mais conveniente, está bem?Aguardo.

Fui surpreendida por um rápido retorno à negociação, tipo notícia de última hora:
- :) Fiquei a saber q ainda hoje tenho de enviar um outro livro e assim pergunto pelo seu :)Obrigada

E daí a pouco, novo episódio de comunicação, quiçá motivado pela nova venda no horizonte interestelar:
-Olá. Entretanto lá consegui ir. Pesando só o livro é 1.04€, mas o Sr disse q varia de grama p grama, por isso embrulhar numa folha de jornal + o cordel deve dar uns 1.10€. Assim o total passa para 9.10, pode ser? Obrigada.

“Varia de grama para grama”. Ah pois varia. É um facto que o peso varia de planeta para planeta: um livro na Terra pesa X, em Marte pesa Y. Atentei na forma como o vendedor fez uma estimativa à “folha de jornal” “mais” “o cordel” para chegar ao valor de 0, 06 CÊNTIMOS pelo papel e cordel. Pareceu-me um valor excessivo obtido através de um cálculo muito amador. Pensei exigir no mínimo uma fotografia da folha de jornal e do cordel no prato da balança da cozinha e competente leitura no visor digital em nome do rigor. Mas...espera lá: FOLHA DE JORNAL?! Por muito que partilhe do seu fervor de salvar o Planeta e poupar recursos, ó sr. extraterrestre, estamos a falar de um livro, um objecto sensível: para esta bibliófila nada menos do que três voltas de plástico com bolhas a protegê-lo na viagem de longo curso desde Marte até à minha porta, por favor! Mmmm...será peso a mais para a viagem?

E acrescenta o vendedor em novo email, agora era às mijinhas:
- Caso aceite o meu nib é: (...) o nome é (...) e não se esqueça que preciso da sua morada. Obrigada :)

Diário de bordo: corre o dia 28 de Fevereiro do ano 2017 da graça de nosso senhor Jesus Cristo. Passaram três dias desde o contacto. Várias ideias cruzaram a minha mente à velocidade da luz quando acordei para mais este email. Por exemplo pedir antes ao vendedor que usasse uma folha de couve, sempre era mais resistente do que a folha de jornal e biodegradável. Lembrei-me sugerir o Correio Verde, afinal que melhor alternativa ecológica à folha de couve. Mas isso podia abrir mais uma era espacial de negociações entre mim e o marciano e deixei cair a ideia. Será que o vendedor estava a brincar? A fazer humor? Mas com livros não se brinca, a não ser que sejam daqueles plastificados que os bebés levam para o banho. Aiiiiiii...deu-me cá um buraco negro! Abri o Google e fui ver na livraria do costume, ora, ora, porque não comecei por lá? Eu e esta minha mania de “fazer circular os bens sempre que possível entre os humanos porque é bom para o Planeta”.

Comuniquei o facto ao vendedor com lisura mas secamente:
- Bom dia (...)
Vou desistir da compra. A Bertrand está a vender por 10.00 euros, novo. Não compensa comprar o seu. Peço desculpa pelo tempo que lhe fiz perder. Agradeço a sua atenção.

Pensei que o extraterrestre das vendas em segunda mão online já não comunicasse de volta mas ainda botou faladura:
- Em inglês? Obrigada pela informação.
- Sim, claro, em inglês, -respondi.

Chatos dos extraterrestres. Fim da transmissão.

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