8/23/17

Aos homens constipados


Aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'

8/17/17

João Quadros ou João Quadrado?

Percebi agora que um tal humorista Quadros anda nas bocas do mundo por ter chamado skinhead ou cabeça rapada ao Passos, assim criticando um discurso algo xenófobo que este fez, e que eu não li, mas, com aquela voltinha de trazer à colação na piada a mulher dele, doente oncológica, e, claro, para muitos o cancro é um dos assuntos que tem de ficar fora do humor, compreensível pelo sofrimento e impacto da horrível doença tanto no paciente como nos que lhe são próximos. Mas esta lista de assuntos que têm de ficar à margem do humor é uma coisa que me incomoda. Não é por fazer de conta que um problema não existe que ele cessa de existir: vamos excluir do humor temas como a doença, a deficiência, etnias, religiões, classes sociais, a sexualidade e outros? Ou marcar-lhe limites? E impor limites é atacar a liberdade de expressão? É um grande e apaixonante debate que esteve bem aceso nas redes aquando das mortes no Charlie Hebdo.

Não há dúvidas que o visado da piada em causa é PPC, não a esposa. É um ataque bem forte a PPC, uma crítica política vexatória mas certeira. Pior por acarretar um dano colateral ao envolver a esfera pessoal e emocional de PPC: daqui nasce o ultraje pois Quadros explorou uma sua vulnerabilidade, a fatalidade da esposa. Compreensível que as pessoas rejeitem um e outro, o primeiro por serem da cor política de PPC, o segundo, por entenderem que têm de existir limites para o humor negro, muitas vezes cruel e muito incómodo.

Eu não sigo os tweets do Quadros, só sei quem é pelas fotos que por aí circulam de um tipo guedelhudo, ar nicotinado e noctívago. Com frequência leio sobre ele comentários na maioria desprestegiantes, tipo imbecil, ordinário, besta. Mas não tenho opinião formada. Mas sei que nem todos somos Charlie, alguns de nós são  Charlie Brown. O humor nem sequer tem que gerar unanimidade mas convinha não perdermos a cabeça pois desatar a desejar a morte ao homem e familiares com todas as letras não faz de nós seres humanos mais sensíveis do que ele próprio, não é?

Despacito


Dei um saltinho à praia de Buarcos e no regresso deparei-me com estes senhores a tocar um medley dos Abba para uma grande plateia na esplanada do jardim. Cheguei a meio e quando me estava a sentir uma verdadeira Super Trouper, com vontade até de dançar com um dos turistas presentes que sabia todas as letras, acabou o medley. Trazia os ouvidos cheios de coisas como Si te vas yo también me voy/Si me das yo también te doy/Mi amor/Bailamos hasta las diez/Hasta que duelan los pies, tinha vindo pela marginal fora a cantarolar o Despacito, sonoridades ainda frescas na ponta da língua, patrocinadas pelos animados vizinhos de praia que hoje me couberam, quando ouvi a banda. Junto ao mar a minha tolerância dilata-se e os meus níveis de implicação derretem sob o sol, pelo que até curti os ritmos calientes e, já agora, o vigor da linguagem juvenil pontuada a alhos e folhas, o tratamento carinhoso ímpar. Ah, escusam de me vir dizer que quando eu era jovem também falava assim, eu ainda me lembro, apesar das brancas. Foi uma fase, ou talvez tenha sido uma frase, ou duas, isso já não asseguro. Mas a fase destes jovens é de muitas frases, muitas mesmo, embora repetitivas, tudo bem, meu caralho, vamos ao mar, ó minha grande vaca, sai mazé da minha toalha, minha gorda, ó meu boi, páaaara quieto, puta, tu passa o bronzeador, evidentemente que estão de férias, o linguajar colorido é que não está.  A meio da conversa uma das miúdas dizia à outra do grande escândalo: a não sei quantas foi para Humanidades. Mas ela nem sabe falar! Como podem ver já cheguei a casa e o vento mudou: isso nota-se perfeitamente pelas notas soltas de intolerância e de implicação. Ah, esta foi a última foto que fiz com a minha máquina de trazer no bolso: a puta deu o definitivo peido mestre. Ou entrou um grão de areia na engrenagem ou então fundiu-se devido à conjugação da alta temperatura com os ritmos calientes. Que merda, só me apetece falar mal.

8/13/17

Incêndio florestal - a praga do verão em Portugal




Nunca entendi o que move alguém a meter-se no carro para ir ver um fogo florestal. Esta atracção, que considero doentia, não é de hoje mas ontem não existia a motivação acrescida de filmar e partilhar o evento nas redes, o objectivo mais ou menos secreto de conseguir a glória fugaz de uma imagem viral. Onde, afinal, a estranheza quando pessoas ateiam os próprios gases para filmarem a breve flama e depois partilharem proeza com o mundo ávido de imagens insólitas?! Há uns anos largos houve um incêndio na serra da Boa Viagem e o instrutor de condução orientou-me na direcção da elevação, de onde se desprendia um penacho de fumo. - Mas está a arder, disse eu. - E então? Vamos lá ver. Segui a contragosto, com vontade de me negar, afinal o volante era meu. Mas a posição de subalternidade, o pouco à-vontade e experiência incipiente ao leme das quatro rodas venceram o meu sentido cívico e até temor. Tivemos de atravessar a ponte sobre o rio e a cidade. Já na subida da serra fomos ultrapassados por um carro de bombeiros e pelo som perfurante da sirene. - Chegue-se para a borda! Não viu que vinha lá um veículo em serviço de urgência? É surda? - gritou, subitamente alarmado. Lançou então a mão ossuda ao volante e guinou o veículo para a berma direita, para a orla das árvores. O carro imobilizou-se, uma nuvem de pó elevou-se ao redor e a mim deu-me uma valente travadinha. Eu, que nem queria estar ali, acabara de levar roda de incauta e empata. Acesa de raiva, a suar de calor e vergonha, de forma ágil e com precauções tomadas - como se já dominasse toda a faena rodoviária-, fiz uma rápida inversão de marcha. - Mas o que é que está a fazer? - perguntou ele. - Vamos regressar à escola. Acabou a aula. O instrutor meteu os olhos no pequeno Nokia cinzento com que usualmente brincava de uma mão para outra. Sempre enviava e recebia mensagens de forma frenética assim quebrando o marasmo de cada hora de condução. Não disse mais nada naquele dia, como que se tivesse extinguido a vontade de falar a par do fogo da sua curiosidade pela destruição.


P.S. Este instructor não era má pessoa, não quero que fiquem com má impressão do sujeito. Ensinou-me a conduzir. Infelizmente chumbei no exame de condução por excesso de velocidade entre outros erros, e tive de repetir! Já não sei como se chamava e nunca mais o voltei a ver. A fotografia é de ontem, tirada da varanda, só para não fugir à desditosa trend pirónoma dos últimos dias.
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"Os Bombeiros que são manifestamente poucos, para tantos incêndios, não podem chegar a todo o lado. Estão sempre rodeados de populares, o que é bom. Só que, ao invés de ajudarem a esticar e recolher mangueira e material de combate, apagarem pequenos reacendimentos, limitam-se a registar vídeos, e fotos para mais tarde publicarem nas redes sociais. Não sou contra mas, antes, ajudem os Bombeiros que nos dias que correm, estão a atingir a exaustão e não chegam a todo lado. Amigos um incêndio florestal não é um espectáculo circense, mas sim um drama irreparável para a sobrevivência humana.
Vão até nós, mas, por favor, não levem os carros para não atrapalharem o nosso dificil trabalho. "

Acácio Monteiro, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Brasfemes

8/5/17

O equidna vai à praia




Quando logo mais forem à praia e não se lembrarem de adivinha melhor para contar à miúda que acabaram de conhecer, podem usar esta: que animal tem bico e põe ovos mas não é ave, tem bolsa mas não é canguru? Resposta: o equidna. Eu testei uma outra adivinha sobre o bicharoco em causa com um cinquentão bem apessoado mal acabado de conhecer, foi uma espécie de ice-breaker, enquanto devorávamos um ouriço ali para os lados da Ericeira: não é homem mas animal e tem título real. Que bicho é? Ele não fazia ideia. É uma espécie de equidna da Indonésia que recebeu o nome de Sir Attenborough, o naturalista, - disse-lhe eu. Devolveu-me a cultura animal com um negro laudo sobre uma tal Equidna, o corpo metade jovem mulher, a outra metade, uma serpente. Vivia numa caverna no ventre profundo da terra, longe do olhar dos homens e da atenção dos deuses. Casou com o deus Tifão, tornando-se a mãe de todos os monstros, por exemplo, Cérbero, o cão de três cabeças, que guardava as cavernas e grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Hades, o mundo dos mortos, ou Éton, o abutre que comia diariamente o fígado do condenado Prometeu. Equidna e suas crias possuíam uma natureza terrível e adoravam devorar viajantes inocentes. Fiquei depois a saber que o homem era professor de História com uma paixão bicuda por mitologia clássica. Um clássico. Ele ficou desapontado quando lhe disse que não, eu não era bióloga e antes jurismamífera de formação e cheia de paixões bicudas por tudo e por nada.



Foquemos agora neste trôpego video de verão: o equidna foi à praia. E porque não? O equidna até sabe nadar. Esperem tudo deste peculiar animal um pouco ave, um pouco ouriço, um pouco canguru. São monotremados, é assim que se chama a esta ordem de animais que têm cloaca por onde excretam e também saem embriões envoltos em casca que depois ficam a viver na bolsinha da mãe: terminado o choco são do tamanho de um feijão. Já agora, “trema” quer dizer abertura. Não confundir com monotramados: os “monos tramados” somos nós, macacos deslumbrados e cegos com as luzes da cidade. Regressando aos equidnas, os pobres são meio ceguetas mas equilibram o défice de visão com audição aguçada - já Diogenes dizia que nós temos dois ouvidos e uma língua para que possamos ouvir mais e falar menos - e olfacto perspicaz. Têm uma língua muito comprida e pegajosa, mesmo ajeitadinha para caçar formigas e térmites e minhocas. Vêm trilhando o seu caminho desde tempos pré-históricos, passo a passo, perna entroncada e curta, garras longas, aguçadas, e corpo espinhoso semelhante ao de um ouriço comum. Quem sabe por ser um bichinho solitário que não se mete na vida dos outros - já Sartre dizia que o inferno são os outros - é assim, longevo, chamam-lhe um fóssil vivo. Os testículos dos equidna ficam na região abdominal e o pénis encontra-se na cloaca. Pode parecer uma experiência laboratorial algo exótica ou controvertida da mãe Natureza mas funciona porque eles povoaram a Tasmânia, a Austrália, a Indonésia e a Nova Guiné. A estranheza não se fica por aqui. Estas curiosas bolas espinhosas – se ameaçados têm duas tácticas, ou se enrolam numa bola hermética, escondendo o focinho bicudo e a barriga vulnerável, ou se enterram rapidamente no chão, pois são uma espécie de mini TBM animal, TBM, são aquelas máquinas perfuradores de túneis, do género das que operaram o milagre de unir a ilha inglesa com a França, - não têm mamilos e antes glândulas mamárias para a produção do leite. O líquido sai por poros e escorre nos pelos da região abdominal das fêmeas. Imaginem esta solução nos humanos! Se amamentar em público já é censurável e abjecto para tantas boas almas e o líquido sai de um par de tetas bem acabadas, imaginem, imaginem, se conseguirem, leite a escorrer dos nossos poros e nossas crias humanas a lamber da pele que nem gataria sôfrega. A Natureza quis proteger-nos de imagens potencialmente chocantes mas nós, sempre brilhantes na nossa perversão, fomos logo encontrar defeitos na perfeição. Pobres equidnas, que espectáculo pegajoso que não deve ser, uma porcaria pegada. Mas, por outro lado, devem ficar com a pele bem macia da proteína do leite. Boa praia e boas adivinhas.

7/2/17

O casamento do Bruno Ornelas

Vocês sabem lá o que me sucedeu ontem. Cheguei aos Jerónimos atrasada - o taxi chocou com um tuk-tuk e ficou de tal ordem amachucado que eu acabei por terminar a corrida no tuk-tuk - e, como se isso não bastasse, não pude entrar no casório do Bruno Ornelas. À entrada da igreja de Belém estava um detetor de metais para verificar se alguém levava consigo armas ou objetos perigosos para a integridade de noivos e convidados. O segurança teve a lata de me dizer que tinham enviado mensagem a todos os convidados, alertando para as caprichosas medidas de segurança, mas é mentira, eu nada recebi. Por momentos pensei que me tinha perdido e que estava no aeroporto, ou coisa assim: é sabido que em Lisboa eu não me oriento. Aquilo desatou a apitar e a fazer luzes e foi uma vergonha. Por mais que eu afiançasse que não tinha granadas comigo, nem mesmo o corta-unhas, eles já não me deixaram entrar. Regressei a casa no Expresso das 18.30 horas: não tive problemas para entrar no autocarro mas até já estava a roer as unhas de nervoso quando entreguei o bilhete ao motorista. E encomendei eu esta pecinha da Amazon de propósito para a ocasião! Agora resta-me esperar pela Primeira Liga. Nas Antas serão decerto mais compreensivos.

7/1/17

Carro de compras com rodinhas electrónico: preciso!

Há uns tempos vi aqui na internet uma geringonça electrónica com rodinhas que nos seguia para todo o lado, uma espécie de mala do futuro. Mas é óbvio que os supermercados têm de copiar a ideia. É que costumo encostar o cesto das compras aqui e ali para ir fazer a minha prospecção de víveres em modo mãos livres, e, não raro, acontecem cenas tristes: já por diversas ocasiões andei a deitar as minhas compras no cesto dos outros. Hoje, quando dei por mim junto da caixa e já com parte das compras a deslisar no tapete em direcção às mãos da operadora, verifiquei que me tinha apoderado de um cestinho alheio, de homem: um creme de barbear e um pack de pilhas aguardavam no fundo. Fui tomada por uma aflição súbita como se tivesse roubado aqueles dois produtos! A menina desenvolta começou a registar os meus brócolos, os tomates já corriam para ela com velocidade nunca vista pelo tapete de borracha adiante e eu queria um botão vermelho de Stop mas não há. Então sorri acanhadamente e menti em voz baixa, como que para emprestar seriedade às minhas palavras, que era só um minuto, já voltaria: tinha deixado a carteira nas frutas. Lá fui a serpentear pelo supermercado, sem esperar pela resposta, a puxar o atrelado velozmente que nem o cavalo do Messala pela biga do nobre romano, no Ben Hur. O problema é que a zona das frutas e legumes é uma de vários obstáculos a contornar, uma verdadeira gincana. Às voltas, tentava lembrar-me onde tinha estacionado a minha biga e ao mesmo tempo ia deitando o olho aos cestos que circulavam por ali de forma algo negligente, e a outros estacionados na berma. Observei que os homens às compras, poucos, não ostentavam nenhum sinal de particular aborrecimento. Onde estaria o meu cestinho com rodas? Ó Nossa Senhora do Abacate! Só agora me ocorria que talvez a namorada extremosa do homem, a esposa diligente ou a filha simpática fossem as compradoras. Bolas, bolas. Apurei a vista e perto da zona dos congelados identifiquei uma jovem senhora de túnica, e ar-de-quem-ainda-iria-à-praia-hoje se encontrasse o cesto das compras, a olhar friamente na minha direcção. Um arrepio percorreu-me o cérebro despertando-me para a solução: era isso. Encontraria decerto o meu cesto perto da tulha dos peixes aonde eu tinha estado a comparar preços antes de ter ido pesar as frutas e os brócolos. Devia ser esse o epicentro do imbróglio! Fiz marcha atrás e contornei os produtos biológicos já em excesso de velocidade. Com sorte não derrapei mas dali consegui ver um cesto verde esperançosamente à espera. Aproximei-me de manso e reconheci o gengibre: ó felicidade! Ali estavam as minhas restantes compras. Troquei de cesto com a naturalidade e a destreza de um espião da guerra fria habituado a andanças comprometedoras. Passei então rapidamente pela jovem da túnica cuja voz, toda sorrisos, podia ouvir ao telefone: o seu olhar era agora temperado. Apressei-me a alcançar a caixa onde uma pequena mas incomodada fila de duas almas, um cestinho e um carro de compras, me aguardava. Desculpas depois e despachada dali ainda fui tomar um café retemperador e quando saía do hipermercado vi que descia um jovem magricela em calções de ganga pelo joelho e t-shirt preta na passadeira rolante, mesmo à minha frente. Numa das mãos levava as chaves do carro, e na outra, um saco de laranjas, um creme de barbear e um pack de pilhas.

6/26/17

Anedota do Bocage



A política portuguesa anda a ficar cada vez mais descuidada. Certo dia estavam João Marques e Passos numa festa quando este emitiu uma flatulência. Muito desconcertado viu o amigo João Marques e dirigiu-se-lhe rogando que assumisse a culpa pelo sucedido, para limpar o ar. Prontamente João ofereceu-se para assumir o acto. E então chegou-se ao centro da sala, bateu palmas, e disse em voz alta:
- Minhas senhoras e meus senhores. Quero pedir muitas desculpas. O peido que o Passos deu, não foi ele, não: fui eu! 
Bocage não teria dito melhor.

6/22/17

Fazer a monda nas redes sociais



Agnes Arabela Marques e Castelo Branco são como ervas daninhas, plantas que crescem fora de contexto e de forma indesejada. Competem pelo espaço mediático, pela luz, a nossa atenção é água para elas. Se permitirmos podem ofuscar as outras com os seus comportamentos exóticos e viçosos, assim dando por cumprida a sua missão na Terra. Existem diversas técnicas para lidar com estas pessoas daninhas: a monda manual é a melhor opção para eliminar as suas manifestações das redes sociais e do terreno pantanoso de alguns jornalecos online. Ó meus amores: indignem-se, soltem interjeições mas não façam eco, não partilhem estas florações patéticas. É tanta a mediocridade que assim trazemos para o nosso jardim! Se não podemos impedir que germinem evitemos a proliferação.Eduquemo-nos para ser sábios:ignoremos já que não podemos punir e muito menos educar estas formas de vida. Não lhes demos mais luz, por favor. Elas acabarão por secar, no seu contexto e morrer, sim?

6/21/17

A politiqueirada portuguesa é...


"Pensar o meu país. De repente toda a gente se pôs a um canto a meditar o país. Nunca o tínhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de súbito foi isto. Mas para se chegar ao país tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que não. Nós é que temos um estilo de ser medíocres. Não é questão de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. Não é questão de se ser estúpido. Temos saber, temos inteligência. A questão é só a do equilíbrio e harmonia, a questão é a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado é o ridículo, a fífia, a «fuga do pé para o chinelo». O Espanhol é um «bárbaro», mas assume a barbaridade. Nós somos uns campónios com a obsessão de parecermos civilizados. O Francês é um ser artificioso, mas que vive dentro do artifício. O Alemão é uma broca ou um parafuso, mas que tem o feitio de uma broca ou de um parafuso. O Italiano é um histérico, mas que se investe da sua condição no parlapatar barato, na gritaria. O Inglês é um sujeito grave de coco, mas que assume a gravidade e o ridículo que vier nela. Nós somos sobretudo ridículos porque o não queremos parecer. A politiqueirada portuguesa é uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura. Deus. É pois isto a democracia?"

Vergílio Ferreira, “Conta Corrente II” (1982-1985)

6/15/17

Recrutamento



Um "prestigiado cliente" quer vendedores em part-time para trabalhar na Foz, no Porto. Solicita que tenham como habilitação MÍNIMA a licenciatura, experiência anterior em vendas é factor preferencial, também elevada resistência ao stress, sentido de responsabilidade e boa capacidade de comunicação. Eu até me candidatava porque é no Porto, aquela cidade que eu adoro, mas sei que não faltam por aí pessoas habilitadas com mestrados que anseiam por desafios profissionais gratificantes, tenho a certeza que era logo arredada na primeira varredura do recrutamento. Esqueci-me de mencionar que é para vender pipocas apesar de não pedirem que as pessoas saibam fazer pipocas, ah, pois é, devem dar formação no posto de trabalho.

6/2/17

Arnold Schwarzenegger contesta escolha deTrump sobre clima




O Arnold surpreendeu-me. Eu e o meu datado preconceito de que o cérebro dele mirrou na proporção em que os músculos incharam e de que não pode vir de lá grande coisa. Já devia ter vergonha. Trump a invocar que o Acordo de Paris é um mau negócio para os EUA e que o quer renegociar é hilário. Do que sei, o Acordo não passa de uma espécie de “acordo de cavalheiros” em que os países não se obrigam propriamente a agir, é uma declaração de intenções. A meu ver isso não lhe retira grandeza. A honra de cada Estado aderente seria então demonstrada, primeiro, pelo reconhecimento da necessidade de agir e depois, liberto do cumprimento forçado através de multas e outros mecanismos, pela escolha de fazer o que é melhor para o futuro dos seus cidadãos. Em verdade num mundo perfeito não deveriam ser precisas medidas punitivas para forçar o cumprimento. Quantas vezes as leis são violadas sem pejo e pagas as multas apenas para se seguir nova reincidência. Se a perfeição é uma quimera então aprendamos todos a fazer da imperfeição o combustível para alcançar aquela e não a chama em nos imolamos. Sair de um Acordo voluntário para o renegociar quando é mais fácil estar à mesa para o fazer do que pedir para me sentar nela de novo, não parece fazer grande sentido. A não ser que Trump não queira renegociar nada e antes fazer o que bem lhe apetece, ele e o seu círculo de amigalhaços investidores. Infelizmente as cidades mineiras dos EUA onde as pessoas entretêm os dias a matar o tempo olhando pela janela não serão ressuscitadas por esta sua decisão. Tenho realmente pena dessas pessoas. São apenas seres humanos como eu que só votaram em Trump porque sonhavam com uma mudança e nem sou capaz de as censurar. Mas a mudança não passa por reanimar cidades mineiras ou continuar a esventrar a terra em busca de petróleo e antes por reconverter todas as indústrias sujas e poluentes em alternativas mais limpas quer durante o processo de extracção quer durante a utilização. Isto é tão básico que nem era preciso admitir o aumento do aquecimento global ou dos gases de estufa para o tornar mais necessário ou mesmo urgente. Apostar nisso é que seria entregar a essas pessoas um suplemento de vida, um futuro para os que desesperam nessas zonas economicamente deprimidas e seus descendentes. Há 30 anos atrás a minha avó que nasceu em 1914 e que trabalhou nos campos e que conhecia bem o ciclo das estações e das colheitas já me dizia que o clima estava a mudar. Ela não leu relatórios científicos mas interpretou os sinais da Natureza. Se os tivesse lido teria percebido melhor. A evidência é, passados 30 anos, maior. Se a subida do nível dos oceanos é até certo ponto inevitável é, todavia, imperioso fazer o impossível para abrandar esse processo. Vivo numa zona de costa, a erosão já é muito grande em algumas zonas e muito provavelmente, aqui, e noutras cidades costeiras de todo o mundo, num futuro mais ou menos próximo, vai acontecer o que hoje acontece em Miami Beach onde a água do mar tomou conta das ruas e se gastam fortunas em obras para manter a cidade seca, uma solução que durará, segundo os engenheiros locais, 500 anos. Leram bem: 500 anos. Mas se até um actor de cinema que ganhou notoriedade à conta da sua massa muscular consegue fazer um filme mais limpo sobre o futuro, não tardará que todos estes fósseis que permanecem reféns do carvão e da indústria do petróleo sejam condenados à extinção. É a evolução natural das coisas. O assunto merecia uma argumentação mais apaixonada mas hoje não posso. Ouçam o Arnold. (Cliquem)

6/1/17

Armando Silva Carvalho - poemas



LEITURA DE JORNAL

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?

100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar metastável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.

Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.

Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez o único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.

É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.

Abençoado profeta, só eu não sei por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor do universo.

POEMA QUE FOI CURTO

Num poema curto a corrente do sangue corria
como um planeta levando no dorsal
a filosofia pública da hora,
e a luz nua e directa incidia sobre o corpo,
real, absoluta.

Hoje o poema teima sempre em ser maior,
e a história, o tempo, a memória e o verso porque é velho,
ocultam-lhe a idade nas curvas irreconhecíveis
dum vulto.
É sempre cada vez mais longa a maratona,
e as insistentes palavras

parecem desistir enquanto avançam.

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O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.
Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.

5/17/17

Protestem contra o Correio da Manhã: escrevam para a ERC


Já vai talvez um pouco tarde mas convido os frequentadores do meu boteco a perderem algum tempo a escrever para a ERC e a repudiarem o sucedido: http://www.erc.pt/pt/balcao-virtual/formulario-de-participacoes
Para quem não sabe: anda aí um video desde domingo que foi filmado num autocarro, na cidade do Porto, e que mostra um par de jovens em actividade sexual. Diz-se que estão bêbados. Ao redor do espectáculo outros jovens de ambos os sexos assistem, comentam, filmam. O Correio da Manhã divulga assim: "Vejam o video".
Não foi a primeira nem vai ser a última vez. Televisões/jornais armados em guardiões da justiça; sites/blogues/páginas “caça-Likes” mascaradas de arautos da denúncia/linchamento dos perpetradores ou solidariedade para com a vítima. Transformam cada incidente num espectáculo (triste) mas só até ao próximo, pois passado o pico de interesse nunca mais se preocupam em apurar se se fez justiça. Nem interessa mencionar o crime da divulgação de imagens colhidas e divulgadas de forma ilícita de que ninguém quer saber, isso não se usa por cá. Todos juntos promovem uma imensa onda de curiosidade nojenta que alimenta a partilha e viralização de videos ou fotos de teor sensível. Alguns ainda têm engenho para recriar a situação em modo de entretenimento – “Vejam o vídeo!, refere o CM; um site fez uma aparentemente nobre colagem de fotos de alguns dos envolvidos e até se deu ao trabalho de traduzir um extenso texto para inglês, deve pensar que isto é o Eurofestival. O objectivo evidente é obter mais partilhas.
É curioso que não vejo nenhum destes jornais, TV’s, sites/blogues/páginas a publicar, antes da onda de festanças bem regadas a bebida, ou quando mais lhes parecesse próprio, colagens criativas e textos incisivos no sentido de alertar acéfalos e acéfalas ( termos utilizados na colagem) para beberem com moderação, vigiarem os seus comportamentos, manterem o decoro,- não conhecem sequer a palavra mesmo que quisessem usá-la, não saberiam - ou seja, a divertirem-se sem colocar em causa a sua própria dignidade ou a dos outros, ou ajudando os outros a conservá-la no meio da diversão, seja qual for o seu sexo dos envolvidos. Receiam ser chamados retrógrados se apelarem a alguma contenção, temem ter de lidar com aqueles que facilmente se enojam com o tom paternalista, moralista, salazarista do apelo e logo se dizem oprimidos! É mais fácil alinhar pelo discurso de que "faz parte", que a malta nova precisa de escapes, de se estragar, que é normal da juventude pisar o risco, que todos o fizemos, que é assim mesmo, que cada um é livre de viver a sua vida, carpe diem. Isto é que é simpático, ninguém quer exaltar o desejável exercício de algum bom senso que até parece estar conotado com peçonha. Mas quando estoira a bronca, ui, vamos lá mostrar solidariedade com a vítima, - mesmo que isso equivalha a encher os ecrãs do universo com a sua cara, penalizando-a - humilhar os abusadores, apelar a enxertos de porrada caso se avistem na curva e outras mobilizações.
Eu, que sou apenas, e agora, uma grande, velha e gorda bota de elástico, uma que já não enxerga as coisas como elas são certamente em virtude da minha miopia - e realmente não vi o video todo nem com muita atenção, - não sei dizer se os dois jovens do autocarro estavam com os copos, se se conheciam, se havia alguém a ser abusado ou se tinha havido consentimento, se são menores ou maiores.Mas muita gente tem muitas certezas pelo que admito que talvez saibam mais do que eu. Entendo que alguém deve averiguar isso, alguém de direito, e, caso haja matéria, que chame os dois à pedra, e/ou o autocarro inteiro, os pais, as mães, os amigos, a escola, em suma, investigue-se. Queremos todos um esclarecimento e um culpado ou vários: a sociedade, as marcas de cerveja, as drogas leves e pesadas, as faculdades, a família, a geringonça, o Benfica, a internet e as tecnologias, e, entretanto, não se esqueçam dos jovens. Enfim, que resolvam isso de forma limpa para nosso sossego porque estávamos todos tão felizes a amar pelos dois e agora estamos a detestar o mundo inteiro, ou pelo menos, um autocarro inteiro. A mim o que me incomoda sobretudo é ter visto que num autocarro cheio de gente ninguém foi capaz de se chegar à frente e dizer: “Ó malta, desculpem lá mas não é o lugar para tu estares com a língua na goela dele nem tu com a mão na rata dela, vamos lá a acabar com essa merda. “ É triste pensar que estes jovens "espectadores" não têm qualquer maturidade ou sensibilidade e que consideram normal uma cena que podiam e deviam ter evitado. É tudo giro, é tudo brincadeira, fazer, ver, filmar e partilhar, bué de fixe, mesmo.
Não estou muito alarmada mesmo assim. Nem sempre o futuro de uma pessoa se determina por um erro. Vão crescer, não? É o que espero. Nada os impedirá de serem excelentes seres humanos amanhã. Já vi cenas assim. Vi jovens que se não foram efectivamente vítimas se sentiram decerto como tal depois de uma noite de excessos, outros que festejaram as suas façanhas por dias e alguns que se esqueceram de tudo mal o álcool se apagou das veias porque não havia nada para ser mais recordado. Fui jovem e estudante académica e nada disto é novo. Não ser novo não equivale a dizer que seja bonito. Mas realmente novos são os telemóveis, as redes sociais e a imprensa rasca. Mas já nos anos 80 havia jovens a foder às sombra das capas negras contra as árvores e tapumes do Parque ou no chão, e gente a vomitar-se de cima abaixo pela noite dentro e gente a mijar do alto para o Mondego bexigas a transbordar de cerveja, e lixo de copos de plástico e garrafas por todo o lado, e triunfos e amargos de boca na noite seguinte, alguns que o tempo faria esquecer outros a deixarem marcas profundas. Mas havia também sonhos e ilusões. Tudo continua, agora ampliado pelas filmagens dos telemóveis que as pessoas depois partilham sem parar, umas porque são apenas parvas, outras porque sabem perfeitamente o que estão a fazer e não se coíbem, e, finalmente, por sites, páginas e blogues que se aproveitam disso com claros fins de lucro publicitário, e por fim pela comunicação social sem freio ou ética ou réstia de profissionalismo. Vamos lá escrever para a ERC. Vai dar multa e da próxima vez a cena vai repetir-se e a gente escreve novamente. Estejamos atentos porque o nosso papel é importante: não podemos vencê-los mas podemos combatê-los.

5/13/17

3/20/17

Dia internacional da felicidade



Esta Segunda-feira, dia 20 de Marco 2017, celebra-se o dia Mundial da Felicidade. O Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira, Leiria, em colaboração com o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, propoe o seguinte desafio: 

"Com um pequeno gesto, faça alguém feliz!". Após a realização de um acto de generosidade em prol de alguém, sugere-se a participação numa pequena investigação, acedendo à página do Agrupamento ou da Escola Secundária de Domingos Sequeira, a fim de preencher um pequeno questionário. 

O evento enquadra-se num conjunto de ações públicas e educativas para a tomada de consciência que "a busca da felicidade é um objectivo humano fundamental", conforme preconiza a ONU (Organização das Nações Unidas). Pretende-se, assim, sensibilizar os alunos e a população em geral para a importância que o investimento nas relações interpessoais tem para a promoção da felicidade e do bem-estar. Efectivamente, os estudos indicam que os bens relacionais são mais importantes para uma vida com sentido do que os bens materiais.

COM UM PEQUENO GESTO, FAÇA ALGUÉM FELIZ!
PARTICIPE NUMA INVESTIGAÇÃO: depois de ter contribuído para a felicidade de alguém,
aceda a uma das seguintes páginas e preencha o questionário
https://www.aedsequeira.com ou http://www.esds.edu.pt

3/6/17

As canções do Festival da Canção



Desafio: pega nos títulos de todas as canções que venceram o Festival e escreve uma merda qualquer.

Se as palavras do amor fossem uma Oração. Se iluminados pelo Sol de Inverno, Ele e Ela descobrissem que O vento mudou. Mas a vida não passa de uma Desfolhada portuguesa onde nem todos encontram um milho-rei. Onde vais rio que eu canto nas horas mais cansadas do dia. A Menina do alto da serra caminha ao correr do Tejo. Procura a Festa da vida que a festa na cidade é uma Tourada. Sai do call center sem alma, Flor de verde pinho que morreu antes do tempo. Trazer Portugal no coração não é mais um hino, é um caixão. Olha o horizonte e quer atravessar o mar. A deshoras Lisboa bebe-se em bares, ela entra no Dai-li, Dai-li Dou. Ao volante para casa finta a bófia duas vezes, Sobe, sobe, balão sobe, soprar é proibido. Encontrou Um grande, grande amor entre o primeiro e o último copo. A vida toca em Playback quando desperta a meio da noite, Bem bom, quase parece feliz. Esta balada que te dou é o teu milho-rei, diria o amante, mas no quarto apenas Silêncio e tanta gente só. Olha-o entremeado no escuro e murmura, Penso em ti amanhã, hoje não, Não sejas mau para mim. Estão deitados Neste barco à vela chamado cama, ela ouve-o respirar entre lençóis, lê-lhe nos lábios, Voltarei a ti, como em outros tempos o marinheiro Conquistador que zarpou do bairro de Belém, terá dito a Lusitana paixão. Ela sabe que este rio que nasce Amor d’água fresca e que abraça A cidade(até ser dia) acaba perdido no mar, que este dom de Chamar a música aos corpos de pele Baunilha e Chocolate, morre num amplexo. O meu coração não tem cor, pensa ela Antes do adeus. Se eu te pudesse abraçar todos os dias, esquecer Como tudo começou! Na cidade ninguém tem Sonhos mágicos mas eu Só sei ser feliz assim. Deixa-me sonhar (só mais uma vez), acreditar que Foi magia. A noite fez-se para Amar. Ora, mulher, Coisas de nada, diria o amante se ainda estivesse ali. Fica, Dança comigo até ao fim da noite, serei a Senhora do mar que o desejo te trouxe, vem, vamos percorrer juntos Todas as ruas do amor antes que a maré mude de novo. A luta é alegria mas a Vida minha não é senão espuma. Quero ser tua para sempre mas Há um mar que nos separa. E amanhã já de nada me servirá Amar pelos dois.

3/3/17

Não está nada bom para a praia


La La Land mostrado antes de Moonlight, em Londres!



Esta brincadeira no Rio Cinema, em Londres – que passou uns segundos do La La Land antes de projectar Moonlight - trouxe-me à memória um episódio que teve lugar talvez ainda em 1999 ou já em 2000. Por essa altura havia sessões de cinema nesta vetusta colectividade figueirense, o Grupo Caras Direitas, que já tem mais de 100 anos. Lembro-me de ter lá visto Estranhos prazeres, A raiz do medo, City Hall, Ed Wood, Casa de Doidas e muitos outros filmes. Talvez fosse um sábado ou domingo quando me dirigi à bilheteira onde comprei o ingresso uns minutos antes do início da matinée. Os bilhetes eram uns rectângulos de papel em azul ou rosa, pró menino e prá menina, talvez também noutras cores. Tinham escrito “Volte sempre” – evidentemente que só por causa disso é que eu voltava; e “conserve este bilhete”- obviamente que por causa disso é que ainda os guardo. Havia também uns feios folhetos de tipografia que eu adorava porque mostravam a lista de filmes para todo o mês e me punham logo a fazer planos. Lia-se em alguns deles “Serviço de bar” e "Pipocas Popcorn USA” e “Sala equipada com Dolby Stereo Digital”. O importante a reter é que os bilhetes não tinham impresso o nome do filme, aliás, havia espaços a serem preenchidos que ficavam sempre em branco: a data, o preço. Apareciam por vezes uns números sumidos carimbados no espaço a seguir a Sessão, dois pontos. E era tudo. Fiquei de bilhete na mão, em pé, no hall da colectividade, a fazer tempo, mesmo atrás de mim estava afixado um grande cartaz do Magnolia, mas havia outros. Acaso estão recordados das cenas iniciais deste deste filme? Um narrador elabora sobre acasos e coincidências, sobre tudo estar interligado e fazer parte de um todo? E que a vida é estranha e tal, tão estranha quanto pode ser este caso de uma mãe que mata o filho quando ele se prepara para cometer suicídio? Bem, estava ansiosa por ver a sequência inicial de que todos falavam, era o novo filme do Paul Thomas Anderson sobre gente patética de perdida, viciados e misóginos...e a chuva de sapos. Entretanto aparece o sr. Gaspar, o então presidente da colectividade, por quem eu tinha imensa simpatia, e ali ficámos a conversar sobre o filme espectacular que eu ia ver, os dez minutos foram consumidos em segundos pelo entusiasmo com que todos os cinéfilos falam destas coisas nestes momentos cruciais que antecipam a grande revelação, isto é, que já se viu todos os filmes do tipo, que alguns dos nossos actores predilectos estão lá, que alguns críticos nos jornais dizem que a história é densa, que um amigo achou o filme muito alucinado, que uma amiga adora a banda sonora. E como para bom entendedor meia palavra basta, ninguém entrou em detalhes. Esgotado o tempo, despedi-me do caro cinéfilo, subi as escadas e fui a correr sentar-me no balcão onde as cadeiras eram novas e de um vermelho confortável, não de madeira histórica e de estofos forrados de napa. Não me recordo se havia mais alguém no balcão, fecharam-se as luzes. Ali o filme começava logo após a abertura das cortinas, se é que as cortinas eram corridas como manda a tradição, creio que sim, não havia cá 20 minutos de trailers nem aquele recado para desligarmos telemóveis pois ainda não tinham chegado os tempos da modernidade, eram poucos nos bolsos e ainda sem internet móvel para os animar, por lá ficavam, afinal era o ano de 1999 mas a Lua ainda estava na nossa órbita, ou talvez fosse 2000 mas a odisseia no espaço estava adiada muito além de 2001. E então tem início a ansiada projeção e surgem imagens de Boys don’t cry, do que lembro, nocturnas mas posso estar a inventar fruto da má memória. O que não estou a inventar foi o sentimento de estranheza que me tomou. Supus estar a ver o trailer do próximo filme a ser exibido. Uma pessoa arranja sempre a melhor desculpa possível quando quer iludir a realidade! Infelizmente o trailer não terminava porque não era o trailer, era mesmo o filme com a Hillary Swank, - muitos anos antes de ser a mulher do milhão de dólares - que estava a ser exibido! Nem sequer me tinha passado pela cabeça ver aquela fita pelo que, contrafeita, lá assisti até final à história da miúda que se fez passar por miúdo e que deu mal, um argumento inspirado em factos verídicos que lhe valeu o Oscar da melhor interpretação feminina. Quando o filme terminou saí da sala completamente desconsolada: ninguém me tinha trocado as voltas, mas eu tinha trocado alguma coisa, e, hoje, tantos anos passados, ao relembrar a abertura do Magnolia continuo sem perceber o que porquê de um tal equívoco, se nada acontece por acaso.

Cartaz Magnolia

2/28/17

Nada a dizer sobre os Oscars 2017


Livros em segunda mão e extraterrestres


Os extraterrestres estão entre nós. Andam disfarçados de pessoas mas é fácil perceber quando estamos na presença de um. Quando se cruzarem com alguém que passa parte da sua curta vida no Planeta Terra a encaralhar processos: bingo! Isto é verificável em todas as áreas da vida, todas mesmo, e tristemente frequente. Estou certa de que entre meia dúzia de nós encontrávamos material para um vasto compêndio sobre vida alienada em poucos minutos, evidências ultra-científicas. Portanto não vos estou a transmitir nada de novo.

Tudo começou quando a 25 de Fevereiro decido comprar um certo livro em língua inglesa, não interessa o título, é uma tradução de um autor português de renome. Como é hábito começo por procurar nas ofertas em segunda mão, online, porque desconfio que uma batida às lojas aqui da cidade não dará resultado algum, nem novo nem velho, e porque gosto de comprar livros usados: poupo dinheiro, prolongo a vida útil do livro, faço bem ao Planeta. A sorte boceja-me, como disse Jesus, e encontro o livro à venda. Examino tanto quanto me é possível e parece-me em boas condições. Envio uma mensagem ao potencial vendedor, sucinta e explícita:

- Boa tarde! Estou interessada em comprar o livro. Se ainda o tiver pode enviar-me o seu NIB para eu proceder à transferência? Depois eu envio o papel do Multibanco e quando o receber faz o envio do livro. Pode ser assim? Possivelmente só vou ao Multibanco na segunda-feira. Aguardo resposta.

Um dia depois lá chega a mensagem semi-encriptada e oriunda de uma galáxia far, far away mas eu ainda não sabia:
- Olá Isabel. Tal como mencionado no anúncio, preferia em mão, pois tenho de pagar para me dirigir aos correios e tenho de lá ir 2 vezes, pois cada livro tem o seu peso e esse é pago pelo comprador.Onde se encontra a Srª? Eu estou na zona de (...) estando longe aceito a transferência, mas não necessita enviar o talão, eu só envio o livro quando consulto o depósito. :)obrigada.

Compreeendo. Ir aos CTT é sempre uma chatice porque agora a gente já nem escreve cartas, já nem compra selos, já nem sabe onde fica a estação dos mesmos e, quando dá com ela, a loja vende de tudo. É de tal forma que não raro nos sentimos perdidos, por vezes é difícil perceber se entrámos na estação dos CTT ou antes no shopping do bairro. E, pois é, a deslocação. No mínimo gastam-se calorias para ir aos CTT, água, mas também a gasolina, ou energia solar, ou o hidrogénio ou o óleo de fritar batatas na nave especial. A deslocação e o tempo, porque tempo é dinheiro. Por obséquio, cobre lá isso, inclua no preço do livro, mas não faça é disso um bicho de sete cabeças. Quando vou comprar as batatas ao Jumbo elas também não rebolaram sózinhas até lá, pago também pelo passeio das batatas. É pena mas o teletransporte ainda não funciona a partir do desktop, o livro tem mesmo de ser levado aos CTT.

Habituada a estas andanças, e à semelhança do que costumo fazer com os potenciais vendedores, atrevo-me a sugerir uma alternativa para poupar  voltinhas inúteis ao sujeito:
- Olá. Não precisa de ir duas vezes. Eu tenho comprado muita coisa neste site e faço sempre assim: pago o que os vendedores pedem pelo objecto. Faço a transferência e envio o talão. Os vendedores vão aos CTT - depois de terem o talão ou verem o depósito - e fazem a expedição da encomenda: pesam e dizem-me só depois quanto é. Eu então pago os portes quando recebo a encomenda. É só uma ida aos CTT. Os livros pagam muito pouco pois têm uma tarifa especial - deve pedir essa tarifa. Por isso mesmo que eu não lhe pagasse os portes - coisa que não farei - não teria muito prejuizo. Também não preciso do livro com urgência pelo que se tiver uma altura mais conveniente para ir aos CTT - dentro de 3 dias , uma semana - pode dizer-me e eu aguardo. Mais que isto não posso fazer. Mas o sr. é que decide. Aguardo. Vivo na Figueira da Foz e não conheço ninguém na (....) que possa servir de intermediário.

Daí a um ror de tempo a resposta materializa-se na minha caixa de email e é aí que tenho a certeza que topei com um extraterrestre das vendas em segunda mão online. A Figueira fica longe mas este ser vive noutra galáxia. Era por demais uma chatice pagar para se deslocar e ter de ir duas vezes aos CTT mas eis que subitamente o longe se fez perto. Porquê? Porque o livro é grosso. Ora vamos lá saber quanto é que custa fazer a expedição do Atlas Klencke!

-Sim, a Figueira fica longe :) Eu vou saber qt custa enviar o livro e assim q souber eu digo-lhe e sim, pela tarifa especial a q os livros têm direito. Assim qd fizer a transferência acrescenta esse valor (este livro é grosso) Obrigada :)

Pronto. Está tudo grosso. Emburro em frente ao ecrã. A minha cabeça explode em impropérios mentais como uma supernova, o equivalente a pelo menos duas linhas de emoticons de várias cores,10 GIFs e mais uma linha de Trash Doves! Respiro fundo, recomponho-me. Ok, Belinha, afinal tu nem tens pressa no livro. Seja lá como o marciano quiser.
-Então está bem. Como lhe disse não tenho pressa. Faça conforme lhe for mais conveniente, está bem?Aguardo.

Fui surpreendida por um rápido retorno à negociação, tipo notícia de última hora:
- :) Fiquei a saber q ainda hoje tenho de enviar um outro livro e assim pergunto pelo seu :)Obrigada

E daí a pouco, novo episódio de comunicação, quiçá motivado pela nova venda no horizonte interestelar:
-Olá. Entretanto lá consegui ir. Pesando só o livro é 1.04€, mas o Sr disse q varia de grama p grama, por isso embrulhar numa folha de jornal + o cordel deve dar uns 1.10€. Assim o total passa para 9.10, pode ser? Obrigada.

“Varia de grama para grama”. Ah pois varia. É um facto que o peso varia de planeta para planeta: um livro na Terra pesa X, em Marte pesa Y. Atentei na forma como o vendedor fez uma estimativa à “folha de jornal” “mais” “o cordel” para chegar ao valor de 0, 06 CÊNTIMOS pelo papel e cordel. Pareceu-me um valor excessivo obtido através de um cálculo muito amador. Pensei exigir no mínimo uma fotografia da folha de jornal e do cordel no prato da balança da cozinha e competente leitura no visor digital em nome do rigor. Mas...espera lá: FOLHA DE JORNAL?! Por muito que partilhe do seu fervor de salvar o Planeta e poupar recursos, ó sr. extraterrestre, estamos a falar de um livro, um objecto sensível: para esta bibliófila nada menos do que três voltas de plástico com bolhas a protegê-lo na viagem de longo curso desde Marte até à minha porta, por favor! Mmmm...será peso a mais para a viagem?

E acrescenta o vendedor em novo email, agora era às mijinhas:
- Caso aceite o meu nib é: (...) o nome é (...) e não se esqueça que preciso da sua morada. Obrigada :)

Diário de bordo: corre o dia 28 de Fevereiro do ano 2017 da graça de nosso senhor Jesus Cristo. Passaram três dias desde o contacto. Várias ideias cruzaram a minha mente à velocidade da luz quando acordei para mais este email. Por exemplo pedir antes ao vendedor que usasse uma folha de couve, sempre era mais resistente do que a folha de jornal e biodegradável. Lembrei-me sugerir o Correio Verde, afinal que melhor alternativa ecológica à folha de couve. Mas isso podia abrir mais uma era espacial de negociações entre mim e o marciano e deixei cair a ideia. Será que o vendedor estava a brincar? A fazer humor? Mas com livros não se brinca, a não ser que sejam daqueles plastificados que os bebés levam para o banho. Aiiiiiii...deu-me cá um buraco negro! Abri o Google e fui ver na livraria do costume, ora, ora, porque não comecei por lá? Eu e esta minha mania de “fazer circular os bens sempre que possível entre os humanos porque é bom para o Planeta”.

Comuniquei o facto ao vendedor com lisura mas secamente:
- Bom dia (...)
Vou desistir da compra. A Bertrand está a vender por 10.00 euros, novo. Não compensa comprar o seu. Peço desculpa pelo tempo que lhe fiz perder. Agradeço a sua atenção.

Pensei que o extraterrestre das vendas em segunda mão online já não comunicasse de volta mas ainda botou faladura:
- Em inglês? Obrigada pela informação.
- Sim, claro, em inglês, -respondi.

Chatos dos extraterrestres. Fim da transmissão.

2/27/17

Quem quer caminhar pelo Nepal?

Quem quer caminhar pelo Nepal? Lembram-se do Pedro Queirós? Ainda não há sequer duas publicações escrevi sobre a mais recente aventura dele. Recapitulando, o Pedro e um amigo estavam no Nepal quando foram surpreendidos pelo tremor de terra. Foi em 2015 mas as pessoas continuam a viver em tendas e o Pedro continua a mobilizar interessados na reconstrução. Neste momento ele está quase a finalizar uma caminhada que iniciou a 15 de Janeiro, no Taj Mahal, e que vai terminar esta semana no campo Esperança, no Nepal. Terão sido cerca de 1200 km totalmente percorridos a pé com o objectivo de atrair donativos para a causa.

Tenho seguido a jornada do Pedro e e decidi participar na "Operação Fernando - um bocadinho a pé, um bocadinho andando" para ajudar também. O Pedro arranjou um patrocinador que vai doar 10€ por cada quilómetro andado por nós. Porque não aproveita o dia de amanhã (último dia para participar) para exercitar os músculos e contribuir também? Basta caminhar, enviar uma imagem das app que medem Km, tipo pedómetro, vídeo, etc, que comprove o quanto andou e estará a ajudar na reconstrução do Campo Esperança em Kathmandu, no Nepal.

Fiz apenas 6.07 km e fiquei KO. Não tenho ido aos treinos mas até me deu vontade de retomar e continuar. Aproveitei para documentar o percurso em fotos rápidas. O resultado é a colagem acima. Vá lá, não sejam preguiçosos: inspirem-se e toca a andar!

2/25/17

Eu sou Anti Clickbait Portugal. E você?

Não sei bem quem ele é, o MC Somsen, parece ser um bom rapaz, um pouco tímido, até, como na cantiga; mas há tempos descobri que escreve umas coisas bem humoradas. Esta semana danou-se das boas e declarou guerra ao clickbait e agora até já existe uma página para continuar a sua missão no Facebook - https://www.facebook.com/anticlickbaitportugal/

Durante um par de dias assisti ao seu afã em nos poupar ao clicanço inútil, apreciando a forma militante como nos revelava o propósito do aliciamento dos sites visados. Pensei que o MC Somsen ainda fosse acabar vítima do Síndrome do Túnel Carpal porque não faltam exemplos de clickbait a denunciar...! Mas ele sobreviveu.

A malta achou piada, porque é fácil achar piada ao que o MC Somsen posta - ele põe a cabeça no que escreve, tem real sentido de humor, oportunidade e não é nenhum caça-níqueis – e também porque estamos todos fartos de clicar em porcarias, eu já andava tão farta que muitas vezes quando me surgia um título ou imagem que  me cheirava a clickbait até já me recusava a clicar. Por vezes saía vencida e  também lá ia, acabando por ficar depois entre o envergonhado por não ter dominado a vontade e o furioso por me ter deixado conscientemente levar quando os indícios já apontavam para mais um assunto da treta.

Para quem desconhece o termo, clickbait é todo o conteúdo de contorno sensacional ou provocante publicado online com o objectivo principal de atrair atenção e chamar usuários para um determinado web site. O principal problema é que muitos dos sites que usam o clickbait querem apenas captar visualizações, o conteúdo que servem é secundário. Estes conteúdos estão por todo o lado e não apenas no Facebook. Os títulos dos textos publicados e dos videos, ou aquelas imagens peculiarmente chamativas pertencem na sua maioria a sites que esperam gerar dinheiro com cliques em anúncios publicitários ou impressões. São títulos que manipulam habilmente a nossa vontade e de tal forma que por vezes acabamos por clicar e abrir textos que não tínham, à partida, e que não terão, à chegada, qualquer relevância para nós. Algumas vezes os conteúdos até são de boa qualidade, outras são um total vómito. Por vezes a gente até se pode sentir recompensada mesmo se o isco era isso mesmo, um isco. Mas outras vezes o engodo não nos leva até nenhuma truta, aliás nem a uma sardinha transgénica. E aí é que a gente se chateia. Um campeão de visualizações frequentemente referido quando se fala na arte do clickbait é o site Upworthy. Estudem a seguinte lista para aprenderem a identificar a malícia ou a fazer clickbait com êxito, caso pretendam seguir-lhe o exemplo.

Quando se trata de sites ou blogues de mero entretenimento os usuários talvez não se sintam tão ultrajados. Mas a coisa pia mais fino quando são jornais online ou sites de pendor mais informativo que se servem do clickbait para atrair cliques. Sim, cliques e não verdadeiros leitores. Não sei se o fazem para equilibrar as contas e se consideram mesmo que isso vale a pena. Mas o facto desagrada a qualquer leitor que se preze sobretudo se até paga pelo conteúdo que recebe online tal como quando ia comprar o jornal à banca. A par de conteúdos informativos selectos lá aparecem também umas nódoas que mal se confundem com assuntos, atrás de títulos sensacionalistas. É uma mixórdia. Se dantes até estudávamos os títulos dos jornais e o lead como um exemplo muito específico de síntese e de como ele se justificava e ainda conseguia remeter para o texto, agora é tempo de começar a fazer o estudo do clickbait como uma espécie de burla e por isso talvez na disciplina do Direito, não?! Já chega. É tempo de recusarmos todos este tipo de manipulação: eduquemo-nos contra esta prática, portanto, exigindo que haja um nexo claro entre o título e o conteúdo a que acedemos. Ou então navegar neste lodo deixa de ser atraente e começa a ser uma anedota mas uma que nem o nosso riso mais amarelo é capaz de suscitar. Nós já perdemos com isto mas o jornalismo perderá muito mais.

A recordar filmes em véspera dos Oscars


Os Oscars já vão ser entregues no próximo Domingo 26, ou seja, amanhã. Há muito que deixei de ficar a pé para ver a cerimónia na TV mas continuo a ver cinema sempre que posso, pelo menos os filmes nomeados para a categoria de Melhor filme e Melhor Argumento não escapam. É preciso não esquecer que os Oscars são um certame que celebra sobretudo o cinema made in USA e que não esgota as possibilidades. Mas é fácil esquecer que há mais cinema do que esse quando se vai ali ao multiplex. 

Ao longo do ano de 2016 vi perto de uma centena de filmes. Está difícil encontrar filmes que considere obras-primas. Talvez isso apenas signifique que estou mais exigente ou que o cinema anda sobretudo a repetir-se em fórmulas que vendem. Um destes dias alguém queixava-se que La La Land era engraçado mas que não sabia aonde tinham ido parar os grandes filmes. Muitas vezes bastaria a um filme ser competente no equilíbrio dos vários elementos em jogo para ficar satisfeita mas os filmes que ultimamente vejo estão cheios de "mas". Nada pior do que dizer de um filme que é bom "mas". Além desse equilíbrio eu busco também uma qualquer capacidade de surpreender. Ainda assim não é fácil ser surpreendida. Não fui ver Jackie e não sei se irei. Como é que vou ver mais uma história sobre Jackie Kennedy depois de tantos filmes e séries sobre a senhora? Não há nada de mais original para fimar? E por vezes tem-se esta sensação, embora errónea, de que já se viu tudo, que também é reforçada pela presença constante das mesmas caras. Com frequência vemos o mesmo actor em dois ou três filmes ao longo do ano. Que diabo, o cinema não é o futebol. Evidente que gosto de ver algumas delas repetirem-se mas nem sempre asseguram o êxito do filme, nem quando são máquinas de representação, e quando um filme aparece em que os actores são completos estranhos é que percebemos o valor dessa frescura. Também tenho de me conformar pois nem sempre vejo o que quero, vejo o que posso ver. Um ano depois volto também eu a repetir-me e a dizer que gostava de poder ter escrito sobre mais alguns dos filmes que vi mas o tempo não chegou para isso. 

Em 2016  alguns filmes vi que foram uma completa decepção e no topo da lista está Queen of the Desert, um filme dirigido pelo mais que experiente Werner Herzog, sobre a vida de uma extraordinária mulher: Gertrude Bell. Fiquei com uma enorme vontade de ler uma boa biografia sobre esta viajante do deserto, arqueóloga, e exploradora, uma espécie de Lawrence da Arábia. Outro desaire chegou pela mão do também experiente Guiseppe Tornatore, um filme intitulado The correspondance, com Jeremy Irons, sobre um professor que estuda buracos negras e estrelas, com a Olga Kurylenko, a sua personagem trabalha como stunt e é bonita e tal, ele, mais velho, morre e transforma-se num fantasma que ganha vida em mensagens  e videos enviados à amante através de um plano que se destina a alimentar a sua pós-vida e a história de amor de ambos. Um torpor e uma péssima ideia, um filme interminável. Suicide Squad, que vi com o meu sobrinho, devem pensar que meter umas quantas canções animadas na banda sonora chega para esquecer a nulidade que nos venderam. Dá vontade de pedir o Livro de Reclamações: posso ter o meu dinheiro de volta? Entra a Margot Robbie que nasceu para ser Harley Quinn, é só o que recordo. No final questionava se estaria a ficar velha para filmes inspirados por quadradinhos ou o se o filme seria apenas uma total e real bosta. Era bosta, até o meu jovem sobrinho concordou. Além dos péssimos filmes que nos marcam negativamente e que nos fazem contorcer na cadeira e chorar o preço do bilhete e tempo desperdiçado, existem os filmes de que nunca mais nos lembramos mesmo sendo razoáveis. Não sendo bons e não sendo maus ficam como que num limbo. Desses nem vou escrever mas até é injusto. 

Daqueles que recordo, temos então os filmes que arriscaram tudo - ou quase tudo - como Swiss Army Man ou Elle e que nos deixam uma marca profunda, mas positiva. São do tipo que fazem algumas pessoas deixar a cadeira sózinha sentada no escuro. Alimentam discussões infindáveis ou fazem com que os espectadores tenham medo de remexer no assunto. Se uma história com um cadáver flatulento vos pode parecer inconcebível não se espantem- eu própria não estava a acreditar no que estava a ver: o "Harry Potter" impulsionado a gases e a ser cavalgado pelo mar dentro como se fosse um golfinho! Mas se conseguirmos ultrapassar a estranheza e, porque não, o choque inicial, aguarda-nos uma história surreal, bem defendida pelos actores e que nos surpreende até ao fim. Como é que conseguiram pegar numa ideia tão abjecta e torná-la até profunda? Esse foi o brilharete mais criativo do ano; já em Elle travamos uma batalha num território muito mais real para acompanhar o trajecto e escolhas de uma das mais insólitas e complexas personagens que o cinema produziu em tempos recentes, uma grande interpretação para Isabelle Huppert. Lembro ainda White Girl onde podemos ver uma também excelente interpretação de Morgan Saylor que eu apenas conhecia como a aborrecida filha do Brody de Homeland. É o filme de estreia de Elizabeth Wood, incomodou muita gente por causa de questões raciais, privilégio da classe branca e cenas de sexo,  e vou ficar de olho nos próximos filmes que faça. Fruto do tédio cinéfilo em que me encontrava fiz algumas incursões num género que não costumo visionar, o do horror, tive algumas boas surpresas ao ver It follows, Green Room e The witch. Todos muito aconselháveis, por diversas razões. Já escrevi sobre It follows com algum detalhe, Green Room merecia esse detalhe, estupenda realização e exploração do conciso argumento, os momentos de horror costumeiros e que não fazem a minha praia, mas, perfeitamente sustentados na história, nas boas personagens e interpretações, e ritmo irrepreensível. The witch - uma excelente  reconstituição de época, o séc. XVII , místico e rural, da Nova Inglaterra, é um pequeno grande filme sobre muito mais que o sobrenatural, e, lá está, rodado inteiramente com actores desconhecidos sem qualquer desprimor para o facto. Um dos filmes mais longos que vi foi The wailing, filme sul coreano, também dentro do género horror, 156 minutos, com uma boa dose de mistério e excelente atmosfera, desenvolve-se em torno da chegada de um estranho japonês  a uma aldeia, uma doença tenebrosa, acontecem assassinatos e exorcismos, dá-se a investigação subsequente. A dado momento fui engolida pela história e nunca mais me encontrei. Deixei de tentar perceber e fui indo. Mesmo assim não foi uma má experiência. Por outro lado,  Port of call, de Hong Kong para o mundo, foi uma experiência atroz, um dos filmes mais desoladores que vi o ano passado, tem uma cena de demembramento totalmente evitável, é do mais triste que se possa imaginar, ainda mais melancólico e desesperado que qualquer Manchester by the sea alguma vez sonhou ser, centra-se na morte de uma jovem adolescente, há um detective que faz a investigação do caso, chega-se ao fim sem alma. Não tenho quaisquer preconceitos e vejo cinema de todo o género, experimental, alternativo, clássico... e de todos os cantos do mundo. Mas tinha jurado que não via mais filmes com super-heróis -  e porque será isso? - mas Deadpool teve piada e não foi mau de todo, gostei de Ryan Reynolds, um actor que, caso possa, evito. Mesmo assim, pensarei duas vezes antes de voltar a ver um filme de super-heróis. Ainda houve Legend um filme com Tom Hardy a dobrar porque interpreta dois irmãos gémeos, e Tangerine, um filme que foi buscar uma história à prostituição trangénero e se não bastasse mostrar um universo pouco visível no cinema foi uma proeza técnica ao ser totalmente filmado com um iPhone 5S, resultando muito mais interessante que muitas super-produções. Houve muitos mais mas já chega de recapitulação. Deliberadamente não me referi aos mais conhecidos, que muitos de vocês devem ter visto. Para finalizar deixo apenas a lista dos meus favoritos entre essa centena que vi: Zootopia, Captain Fantastic, Kubo and the Two Strings, Hunt for the Wilderpeople, The Handmaiden, Green Room, La Novia, The witch, Youth, It follows, The lobster, Spotlight, A bigger splash, Maggie's Plan, The big short, Swiss Army Man, Elle. E chamo ainda a atenção para o filme francês Divines, que já vi no início de Janeiro, e que é muito, muito bom.

E pronto. Os Oscars são entregues amanhã e está tudo à espera que La La Land seja considerado o melhor filme do ano. Tem um record de nomeações absurdo mas creio que muitas delas não serão atribuidas. Não há como acreditar que Ryan Gosling possa bater Casey Affleck ou Denzel Washington e em termos de argumento qualquer dos competidores é melhor. Este ano já venceu a diversidade, isso é um facto. Os filmes de que mais gostei foram Manchester by the Sea,  Moonlight e Hell or High Water. Depois, Arrival e Hacksaw Ridge. Por fim Hidden FiguresLa La LandFences e Lion.

Para mim a maior supresa da lista de nomeados foi Hell or high water, a maior decepção foi La La Land. Já escrevi sobre eles, não vou insistir. Manchester by the sea e Moonlight são dois excelentes filmes, escorreitos, embora não sejam arrebatadores. O Oscar de melhor do ano devia premiar um deles. Arrival é um bom filme de ficção científica, com um argumento desafiante mas com uma base científica muito intrincada e demasiado louca para fazer sentido, pelo menos, para mim. É evidente e excelência técnica envolvida, mas tem alguns "mas". Hacksaw Ridge também é dos tais com alguns "mas", mas a batalha de Okinawa fica novamente na história pela espectacularidade e brutalidade com que Mel Gibson a filmou. Também o som devia ser distinguido, não me recordo de alguma vez me ter sentido tão cercada e debaixo de fogo como neste filme: apenas o som já é por si só uma experiência incrível. Tal como em Hidden Figures - que nos contou sobre o pioneirismo das três cientistas afro-americanas da NASA e trouxe a Janelle Monae para o grande ecrã com tanta competência como na música - ficamos a conhecer uma história real, a de Desmond Doss, o primeiro objector de consciência norte-americano, um homem que  resgatou 78 companheiros, uma que gostei de conhecer. Em Fences Denzel Washington não teve mão para transformar uma peça de teatro em cinema mas a sua interpretação e a da Viola Davis - interpretação secundária - são dignas do prémio. Hesito entre Denzel e Affleck para o Oscar de Melhor actor, felizmente não me cabe decidir, apenas apreciar. Lion também nos deu a conhecer a história real de um improvável reencontro. Saroo, que aos 5 anos se separa acidentalmente do irmão  numa estação de comboios,  é depois adoptado por uma família australiana e aos 25 reencontra a mãe biológica, num regresso à India. Niguém se conseguirá mais esquecer do pequeno Saroo e da beleza desesperada com que a câmera captou a sua jornada de sobrevivência, mas isso não chega para fazer de Lion um grande filme. 20th Century Women tem uma menção mais que justa na sua nomeação para Melhor Argumento Original mas não caíu nas graças da Academia. Todos os anos torço para que ganhe um filme de animação em stop-motion mas este ano o meu favorito é Zootopia, um triunfo da Disney, que pode ser tão apreciado por crianças como por adultos.  Amanhã saberemos tudo. 


2/24/17

O Papa Francisco vem a Fátima e faz mover o dinheiro: é um milagre



Ora papem lá esta. Se pensavam que aquelas meninas que acampavam junto do Meo Arena para o concerto do Justino estavam possuídas então o que vão agora dizer quando souberem que adultos pagam 992 euros por uma noite em quarto duplo económico com dormida em saco-cama algures na cidade fenómeno de Fátima. Os responsáveis pelo alojamento devem ter sido inspirados pelo "espírito de pobreza" que anima a vida dos Fransciscanos - qualquer saquito cama chega e até é demais. Não sei se vão dormir em estrados ou se é mesmo no chão. A notícia não dizia, mas mencionava ainda outros preços e modalidades. Não sei se a fé move montanhas mas seguramente move o dinheiro. Também gostava de ter. Dinheiro, claro.

A propósito da vinda do Papa a Fátima muitos são os que tentam fazer dinheiro com isso. Ora papem lá esta. Ultimamente o Facebook deixou de tentar vender-me sapatilhas. Agora alterna entre propostas para me acasalar com motociclistas que vivem na minha zona ou sugestões de venda da "arma de beleza secreta que usam os VIPs e as estrelas". Dia sim, dia não, também me tem brindado com o anúncio do Papa Solar. Primeiro pensei que fosse um relógio ecológico e comecei logo a imaginar os bracinhos do Papa a andar à roda, embora para ser fiel à engenharia de um relógio um dos braços tivesse de ser mais curto, detalhe pouco estético mas que também daria expressão à diferença, portanto, socialmente positivo. Depois pensei que fosse mesmo um relógio de sol e imaginei a sombra do Papa a reflectir-se nas superfícies para me dar a conhecer a quantas ando. À noite talvez só funcionasse à luz da vela. Essa parte da funcionalidade do produto configurava-se-me algo nebulosa. Hoje a curiosidade ganhou-me e abri o link do Papa Solar. Não é um relógio mas algo de supremamente útil e não resisto a partilhar convosco: "Com toda a sua energia vinda do sol, este pontífice benevolente faz as suas bênçãos a partir da tua prateleira, janela ou tablier. Sempre que um raio de luz lhe toca ele irá, com um abanar de mão, assegurar que tudo ficará bem. 2% do valor das vendas deste produto será doado à UNICEF. " E eu que ando tão precisada de que tudo fique bem a ignorar continuamente esta benesse de consumo, um espalha-bênçãos a energia solar, a dois meros cliques de distância e por apenas 22.50 euros! Antes de encomendar fui ver a ficha do vendedor pois nunca se sabe se não será mais um artista a vender gato por lebre. Pareceu-me ser boa gente, aliás, para dar uma esmolinha por cada compra para as crianças famintas de África tinha de ser boa gente. Diz assim: "Adoramos ver pessoas felizes por apenas olhar para um objecto! Por isso decidimos abrir uma loja com os gadgets, obviamente, mais originais, desaborrecidos, que protejam o ambiente, os animaizinhos, as plantinhas e outros afins e que façam pessoas felizes por apenas olhar para eles!" Espantoso. Comparem lá isto. Ao contrário do Facebook que - dizem os estudos - nos torna a todos muito infelizes, invejosos e sei lá que mais, olhar o Papa Solar torna-nos felizes! E nem temos que dar Likes, nem comentar, nem partilhar postas de pescada, nada. É tudo na paz, um exercício contemplativo por excelência, deveras apaziguador, todo ele luz, energia solar... Começo a acreditar que é desta que posso dizer adeus ao psiquiatra e ainda poupo na fluoxetina. Até já estou mais desaborrecida e só ainda olhei para a imagem umas quantas vezes. E vocês? Já estão a sentir alguma coisa?

2/22/17

Insegurança na Figueira da Foz?

Fonte Facebook

Quando me perguntam eu digo sempre que vivo uma cidade pacata onde não acontece nada. Mas há cerca de uma hora li este apelo no Facebook e fiquei apreensiva. Ora leiam e digam-me se não tenho razão. No decurso de breve tempo, um mês e pouco, várias pessoas que têm estabelecimentos comerciais sofreram agressões físicas e verbais na Praça 8 de Maio. Em todos os casos a polícia demorou uma hora a chegar ao local! Uma hora?! Penso que quem vive na Figueira da Foz tem o direito de saber o porquê desta demora sistemática. O que se passa? Não há carros? Não há dinheiro para o combustível? Não há polícia? O que parece evidente deste testemunho é que aquelas pessoas estão entregues à sua sorte assim como estaremos todos em caso de necessidade. Pelo sim pelo não convém tornar pública a preocupação desta comerciante que devia ser levada às autoridades e responsáveis competentes pois um esclarecimento é devido. 

Pedro Queirós caminha pelo Nepal e pede a sua ajuda. Partilhe!


"Por favor, compartilhe, doe e ajude-me a alcançar esse objetivo. Que esta jornada também os inspire a caminhar mais e a ajudar aqueles que precisam de nosso apoio, em particular os mais frágeis, como as crianças e os idosos."

Pedro Queirós

Texto retirado integralmente Do "Diário" do Pedro Queirós (Facebook)

"Na Índia, há pessoas a beber água de locais que eu não ousaria tocar com as mãos. E há famílias inteiras a dormir em sítios onde eu não iria sequer à casa de banho.

Há milhões de pessoas e vacas a andar de um lado para o outro, rodeadas de lixo e fumo... num caos que se encaixa e flui na perfeição, como se fosse uma orquestra a tocar numa lixeira.

Há homens de cócoras, com os dentes vermelhos, a mascar tabaco e a cuspir no chão. Mulheres de vestes coloridas carregam água e forragens. Crianças nuas e sujas a brincar por toda a parte. As pessoas são todas afáveis.

É um país onde tudo o que existe, coabita naturalmente. Tudo se revela de forma pacífica no seu meio. Uma árvore, um cão ou uma pessoa nascem e morrem segundo as leis naturais da vida.

O ar cheira a queimadas, especiarias, dejetos humanos, terra, gasolina, plástico, madeira, frutas e flores. O som é de buzinas, geradores e música Hindi tocada alto e bom som, para honrar os deuses.

Esses deuses são Hindus, Muçulmanos e Singhs. Apesar da divisão sangrenta ocorrida em 1947, que na altura deu origem ao Paquistão e Bangladesh, ainda há muita diversidade religiosa no país e pode ser observada nas diferentes vestes e templos.

Os heróis nacionais são Ghandi e Nehru. A moeda é a rupia, sendo que 100 rupias correspondem a 1,4€. Há 1,2 biliões de pessoas, metade das quais a viver em extrema pobreza.

Uma dessas pessoas é esta senhora que aparece na foto abaixo. Encontrei-a na rua e ofereci-lhe a minha camisola. Um olhar marcante.

A poucos dias de sair da Índia e entrar no Nepal, não posso negar o profundo impacto que este país está a ter na minha forma de ver o mundo. Tanta beleza e tanta miséria juntos. Tanta intensidade e naturalidade. Tanto barulho e tanto silêncio.

É um grande privilégio viver esta aventura e conhecer a Índia desta forma. Mas a caminhada só faz sentido por causa do seu propósito humanitário.

Já sabem que podem apoiar em https://igg.me/at/VTRKfwN-cnM 
ou diretamente para o NIB 003300000098021915378


Obrigado e até já!"

Texto integralmente retirado do site 

"Meu nome é Pedro, tenho 35 anos e sou de Portugal. Meu objetivo é angariar 10.000 USD / EUR para apoiar as vítimas do terremoto no Nepal, ANDANDO 1200kms da porta do Taj Mahal, em Agra, para Kathmandu no Nepal !! Começarei no dia 10 de janeiro de 2017! 

Quer saber mais? Desde 25 de abril de 2015, tenho ajudado as vítimas do terremoto do Nepal, em particular os 350 habitantes do Acampamento Esperança, Kathmandu, que incluem 90 crianças. Essas 350 pessoas viveram no Himalaia por muitas gerações, e no dia do terremoto perderam suas casas em poucos segundos. Desde então, há quase dois anos, eles ainda vivem em tendas temporárias ... sempre sorrindo e lutando ... um verdadeiro exemplo de resistência e resiliência, representando de facto uma fonte de grande inspiração.

Esses 350 seres humanos agora são amigos íntimos para mim. Como uma família. ,,,,, Tashi, TDS, Phurpa, Sneha, Mimi, Pasang, Sushna, menino e menina Pema, Ram, Bimal, Gyalbu, Binita, Laxmi, Bibash, Mingmar, Sonã, Lobsang, Nima, Bishwash, Pradip, Pranisha, Sarswoti, Mendo, Samir, Torcendo, Anu, Kanchalal, Rinza, Doma, Nima Lamu e muitos mais ainda estão lá em Camp Hope depois de todo esse tempo. Precisamos continuar ajudando-os! Precisamos fazê-los acreditar em seu futuro!  O projeto de reconstrução de suas aldeias no Himalaia foi lançado, mas os fundos ainda são necessários.

Mais detalhes sobre o projeto em www.ourdreamvillagenepal.org ou www.obrigadoportugal.org 

Quer saber mais? 
 Você pode assistir a este vídeo que explica toda a história do Acampamento Esperança e
 o Projeto de reconstrução 


Então, para continuar a apoiá-los, decidi começar uma nova aventura. Vou caminhar 1200 kms entre a porta de Taj Mahal, na India, e a porta do Acampamento Esperança em Kathmandu. Com este esforço, o meu objectivo é o de angariar fundos de 10.000 EUR / USD que contribuirão para construir uma casa para 6 pessoas. A rota será de Agra a Varanasi e de Varanasi a Katmandu, esperando para completar a viagem de 1200 kms em 40-50 dias. Toda esta rota será feita CAMINHANDO. Não a correr, não por bicicleta ou comboio. Apenas andando ... A partida terá lugar a 10 de Janeiro de 2017, sozinho, com uma mochila de 10 kg. Este verão eu vou me casar, então eu também espero perder 10 kgs para caber no meu fato de casamento! O número 10 está por toda a parte!

Por favor, compartilhe, doe e ajude-me a alcançar esse objetivo. Que esta jornada também os inspire a caminhar mais e a ajudar aqueles que precisam de nosso apoio, em particular os mais frágeis, como as crianças e os idosos."

(Foi pedida autorização para a reprodução de textos e imagens.)


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